2013/05/09


THE PLEASURES OF OPIUM
It is very long since I first took opium; so long, that if it had been a trifling incident in my life, I might have forgotten its date; but cardinal events are not to be forgotten; and, from circumstances connected with it, I remember that this inauguration to the use of opium must be referred to the spring or to the autumn of 1804; during which seasons I was in London, having come thither for the first time since my entrance at Oxford. And this event arose in the following way: from an early age I had been accustomed to wash my head in cold water at least once a day; being suddenly seized with toothache, I attributed it to some relaxation caused by a casual intermission of that practice; jumped out of bed, plunged my head into a basin of cold water, and with hair thus wetted went to sleep. The next morning, as I need hardly say, I awoke with excruciating rheumatic pains of the head and face, from which I had hardly any respite for about twenty days. On the twenty-first day I think it was, and on a Sunday, that I went out into the streets; rather to run away, if possible, from my torments, than with any distinct purpose of relief. By accident, I met a college acquaintance, who recommended opium. Opium! dread agent of unimaginable pleasure and pain! I had heard of it as I had heard of manna and ambrosia, but no further. How unmeaning a sound was opium at that time! What solemn chords does it now strike upon my heart! What heart-quaking vibrations of sad and happy remembrances!

THOMAS DE QUINCEY, U.K.,
in Confessions of an English Opium-Eater, 1821



OS PRAZERES DO ÓPIO
Foi há muito tempo que tomei ópio pela primeira vez; tanto tempo que, houvesse sido ele na minha vida um incidente insignificante e eu pudera ter esquecido a data; mas os acontecimentos essenciais não são para esquecer; e, por circunstâncias a ele ligadas, lembro-me que a iniciação ao uso do ópio remonta à Primavera ou ao Outono de 1804; estações em que me encontrava em Londres, aonde fora pela primeira vez desde a minha entrada em Oxford. E esse acontecimento deu-se do seguinte modo: desde muito novo habituara-me a lavar a cabeça com água fria pelo menos uma vez ao dia; subitamente acometido por uma dor dentes, atribuí-a a uma qualquer descompressão causada pela interrupção ocasional dessa prática; saltei da cama, mergulhei a cabeça numa bacia de água fria e, com o cabelo assim molhado, adormeci. Na manhã seguinte, escusado será dizer que acordei e tinha na cara e na cabeça lancinantes dores reumáticas, que não me deram tréguas durante uns vinte dias. Acho que foi no vigésimo-primeiro dia, um domingo, que saí para a rua; mais para fugir, caso fosse possível, aos meus tormentos, do que com o objectivo específico de obter alívio. Encontrei um conhecido meu da faculdade, que me recomendou ópio. Ópio! Agente temível de prazer e dor inimagináveis! Ouvira falar dele como ouvira falar de maná e de ambrósia, mais nada. Que som sem significado era o ópio, nesse tempo! E que cordas solenes faz hoje soar no meu coração! Como o abala com vibrações de memórias tristes e felizes!

2013/04/18


La vie est étrangement facile et douce avec certaines personnes d'une grande distinction naturelle, spirituelles, affectueuses, mais qui sont capables de tous les vices, encore qu'elles n'en exercent aucun publiquement et qu'on n'en puisse affirmer d'elles un seul. Elles ont quelque chose de souple et de secret. Puis, leur perversité donne du piquant aux occupations les plus innocentes, comme se promener la nuit, dans les jardins.

MARCEL PROUST, França,
in Fragments de Comédie Italienne, 1890


A vida é estranhamente fácil e meiga para certas pessoas de uma grande distinção natural, espirituais, afectuosas, mas capazes de todos os vícios, ainda que não exerçam nenhum publicamente e não se lhes possa atribuir um único. Têm algo de ligeiro e de secreto. Também, a sua perversidade confere picante às ocupações mais inocentes, como passear à noite, nos jardins.

2013/03/31


Zaza, vêtue de taffetas bleu, joua un morceau que sa mère jugeait trop dificile pour elle et dont elle massacrait d'ordinaire quelques mesures; cette fois, elle les exécuta sans faute et, jetant à Madame Mabille un regard triomphant, elle lui tira la langue. Les petites filles frémirent sous leurs boucles et la réprobation figea le visage de ces demoiselles. Quand Zaza descendit de l'estrade, sa mère l'embrassa si gaiement que personne n'osa la gronder. A mes yeux, cet exploit la nimba de gloire. Soumise aux lois, aux poncifs, aux préjugés, j'aimais néanmoins ce qui était neuf, sincère, spontané. La vivacité et l'indépendance de Zaza me subjuguaient.

SIMONE DE BEAUVOIR, França,
in Mémoires d'une Jeune Fille Rangée, 1958


Zaza, vestida de tafetá azul, tocou um trecho que a mãe considerava demasiado difícil para ela e em que geralmente ela matraqueava algumas passagens; desta vez executou-as sem falha e, lançando  a Madame Mabille um olhar triunfante, deitou-lhe a língua de fora. Sob os cabelos encaracolados as meninas estremeceram e a reprovação gelou o rosto das preceptoras. Quando Zaza desceu do estrado a mãe beijou-a com tanta alegria, que ninguém ousou repreendê-la. Aos meus olhos, esta proeza coroou-a de glória. Submetida às leis, às rejeições, aos preconceitos, eu amava no entanto o que era novo, sincero, espontâneo. A vivacidade e a independência de Zaza subjugavam-me.

2013/03/04

Ana Cardoso, desenho - Lx, 1999

Missirilli, brûlant d'amour, mais songeant à sa naissance obscure et à ce qu'il se devait, s'était promis de ne descendre à parler d'amour que si Vanina restait huit jours sans le voir. L' orgueil de la jeune princesse combattit pied à pied. «Eh bien!» se dit-elle enfin, «si je le vois, c'est pour moi, c'est pour me faire plaisir, et jamais je ne lui avouerai l'intérêt qu'il m'inspire.» Elle faisait de longues visites à Missirilli, qui lui parlait comme il eût pu faire si vingt personnes eussent été présentes. Un soir, après avoir passé la journée à le détester et à se bien promettre d'être avec lui encore plus froide et plus sévère qu'à l'ordinaire, elle lui dit qu'elle l'aimait. Bientôt elle n'eut plus rien à lui refuser.

STENDHAL, França, in Vanina Vanini, 1829


Missirilli, cheio de amor ardente, mas pensando na sua origem obscura e no seu dever, prometera a si próprio não condescender e não falar de amor, a menos que Vanina ficasse oito dias sem o ver. O orgulho da jovem princesa travou uma luta cerrada. «Pois bem!» disse enfim, «se o vejo é por mim, é para me dar prazer, e nunca lhe confessarei o interesse que me desperta.» Fazia longas visitas a Missirilli, que lhe falava como teria falado se vinte pessoas estivessem presentes. Uma noite, depois de ter passado o dia a detestá-lo e a prometer a si mesma ser para ele ainda mais fria e mais severa do que habitualmente, disse-lhe que o amava. Daí a não lhe recusar mais nada foi um passo.

2013/02/24

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,
You must be he I was seeking, or she I was seeking, (it comes to me as of a dream,)
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall'd as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me or a girl with me,
I ate with you and slept with you, your body has become not yours only
nor left my body mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass, you take of my beard, breast, hands, in return,
I am not to speak to you, I am to think of you when I sit alone or wake at night alone,
I am to wait, I do not doubt I am to meet you again,
I am to see to it that I do not lose you.

WALT WHITMAN, U.S.A., To a Stranger, 1855



Estranho que passas! Não sabes a saudade com que te olho,
Deves ser aquele que eu procurava, ou aquela que eu procurava, (isto surge-me como saído de um sonho,)
Vivi de certeza contigo algures uma vida de alegrias,
Relembro tudo enquanto passamos rapidamente um pelo outro, naturais, afectuosos, castos, adultos,
Cresceste comigo, foste rapaz ou rapariga comigo,
Comi contigo e dormi contigo, o teu corpo não ficou só teu, nem deixou ficar o meu só para mim,
Dás-me o prazer dos teus olhos, rosto, carne, quando nos cruzamos, levas da minha barba, do meu peito, das minhas mãos, em troca,
Não devo falar-te, devo pensar em ti quando me sento só ou acordo à noite só,
Devo esperar, não duvido que voltarei a encontrar-te,
Tenho que ver se não te perco.

2013/01/19

Where are we going, Walt Whitman? The doors close in an hour. Which way does your beard point tonight?
(I touch your book and dream of our odissey in the supermarket and feel absurd.)
Will we walk all night through solitary streets? The trees add shade to shade, lights out in the houses, we'll both be lonely.
Will we stroll dreaming of the lost America of love past blue automobiles in driveways, home to our silent cottage?
Ah, dear father, graybeard, lonely old courage-teacher, what America did you have when Charon quit poling his ferry and you got out on a smoking bank and stood watching the boat disappear on the black waters of Lethe?

ALLEN GINSBERG, U.S.A.,
in A Supermarket in California, 1956


Onde vamos, Walt Whitman? As portas fecham daqui a uma hora. Para onde aponta esta noite a tua barba?
(Toco o teu livro e sonho com a nossa odisseia no supermercado e sinto-me absurdo.)
Vamos caminhar toda a noite por ruas solitárias? As árvores acrescentam sombra à sombra, as luzes apagam-se nas casas, ambos nos sentiremos sós.
Vamos dar uma volta e sonhar com a perdida América do amor, enquanto passamos pelos automóveis azuis nas entradas, a caminho da nossa pequena casa silenciosa?
Ah, querido pai, barba grisalha, professor-coragem velho e solitário, que América era a tua quando Charon deixou de levar o ferry e tu desembarcaste numa margem fumegante e ficaste de pé a ver o barco desaparecer nas águas negras do Letes?
(conclusão)

2013/01/17

I saw you, Walt Whitman, childless, lonely old grubber, poking among the meats in the refrigerator and eyeing the grocery boys.
I heard you asking questions of each: Who killed the pork chops? What price bananas? Are you my Angel?
I wondered in and out of the brilliant stacks of cans following you, and followed in my imagination by the store detective.
We strode down the open corridors together in our solitary fancy tasting artichokes, possessing every frozen delicacy, and never passing the cashier.

ALLEN GINSBERG, U.S.A.
in A Supermarket in California, 1956


Eu vi-te, Walt Whitman, sem filhos, velho solitário e desgrenhado, metido entre as carnes do frigorífico e a mirar os ajudantes.
Ouvi-te perguntar a cada um: Quem matou as costeletas de porco? A como são as bananas? És tu o meu Anjo?
Andei cá e lá entre as brilhantes pilhas de latas a seguir-te, e seguido na minha imaginação pelo vigilante da loja.
Percorremos os amplos corredores a passos largos, juntos a provar alcachofras na nossa fantasia solitária, a possuir todas as iguarias congeladas e sem nunca passar pela caixa.
(continuação)

2013/01/15

What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for I walked down the sidestreets under the trees with a headache self-conscious looking at the full moon.
In my hungry fatigue, and shopping for images, I went into the neon fruit supermarket, dreaming of your enumerations!
What peaches and what penumbras! Whole families shopping at night! Aisles full of husbands! Wives in the avocados, babies in the tomatoes! - and you, Garcia Lorca, what were you doing down by the watermelons?

ALLEN GINSBERG, U.S.A.,
in A Supermarket in California, 1956


O que tenho pensado em ti esta noite, Walt Whitman, já andei sob as árvores nas ruas laterais com dor de cabeça e a olhar constrangido a lua cheia.
No meu cansaço faminto, à procura de imagens, entrei na frutaria de néon a sonhar com as tuas descrições!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras à noite a fazer compras! Corredores cheios de maridos! Esposas nos abacates, bebés nos tomates! - E tu, Garcia Lorca, o que fazias lá em baixo ao pé das melancias?
(continua)

2013/01/14

For does not the body stay alive
after death
and still need its underwear
or outgrow it
some organs said to reach full maturity
only after the head stops holding them back?
If I were you I'd keep aside
an oversize pair of winter underwear
Do not go naked into that good night
And in the meantime
keep calm and warm and dry
No use stirring ourselves prematurely
"over Nothing"
Move forward with dignity
hand in vest
Don't get emotional
And death shall have no dominion
There's plenty of time my darling
Are we not still young and easy
Don't shout

LAWRENCE FERLINGHETTI, U.S.A.
in Underwear, 1958


Pois não permanece vivo o corpo
depois da morte
e não continua a precisar de roupa interior
ou ela deixa de lhe servir
se, como dizem, certos órgãos só atingem a maturidade plena
depois que a cabeça pára de os reprimir?
Se fosse a ti, eu reservava
uma muda de roupa interior folgada para o Inverno
Não vás nua para a rua em plena noite
E entretanto
Mantém-te calma e quente e seca
Não vale a pena agitarmo-nos prematuramente
"por Nada"
Avança com dignidade
em pose solene
Não te enerves
E assim a morte não terá poder
Temos muito tempo querida
Ainda somos novos e alegres
Não grites

2013/01/13

 

Second Night in N.Y.C. after 3 Years (1962)
 
I was happy I was bubbly drunk
The street was dark
I waved to a young policeman
He smiled
I went up to him and like a flood of gold
Told him all about my prison youth
About how noble and great some convicts were
And about how I just returned from Europe
Which wasn't half as enlightening as prison
And he listened attentively I told no lie
Everything was truth and humor
He laughed
He laughed
And it made me so happy I said:
«Absolve it all, kiss me!»
«No no no no!» he said
        and hurried away.

GREGORY CORSO, U.S.A.


Segunda Noite em N.Y.C. ao fim de 3 Anos

Eu estava feliz estava efervescente e bêbado
A rua era escura
Acenei a um jovem polícia
Ele sorriu
Aproximei-me dele e numa enxurrada cintilante
Contei-lhe tudo sobre a minha juventude na prisão
Sobre alguns condenados tão grandes e tão nobres
E sobre o meu recente regresso da Europa
Que não esclarecia metade do que esclarecia a prisão
E ele ouviu com atenção eu não mentia
Ele ria
Ria
E aquilo pôs-me tão feliz que eu disse:
«Absolve isto tudo, beija-me!»
«Não não não não!» disse ele
          e afastou-se à pressa.

2013/01/01

 

As doces aves batendo as asas andavam buscando umas às outras; os pastores, tangendo as suas flautas e rodeados dos seus gados, começavam a assomar pelas cumeadas. Para todos parecia que vinha aquele dia assim ledo. Os meus cuidados sós vendo como vinha seu contrário (ao parecer poderoso) recolhiam-se a mim, pondo-me ante meus olhos para quanto prazer e contentamento pudera aquele dia vir, se não fora tudo tão mudado; donde o que fazia alegre a todas as cousas, a mim só teve causa de fazer triste.

BERNARDIM RIBEIRO, Portugal,
in "Menina e Moça", c. 1530
 

Neste monte mais alto de todos, que eu vim buscar pela suavidade diferente dos outros que nele achei, passava eu a minha vida como podia: ora em me ir pelos fundos vales que os cingem derredor, ora em me pôr do mais alto deles a olhar a terra como ia acabar ao mar, e depois o mar como se estendia logo após ela, para acabar onde o ninguém visse.

BERNARDIM RIBEIRO, Portugal,
in "Menina e Moça", c. 1530

Menina e moça me levaram de casa de meu pai para longes terras: qual fosse então a causa daquela minha levada, era pequena, não na soube.

BERNARDIM RIBEIRO, Portugal
in "Menina e Moça", c. 1530

2012/12/27


Now as she said goodbye to the Exxon Executive she felt full of conviction, as though the whole aggregate of DNA inside her had intended her, saved itself through her for this one compensatory romance. And she didn't want companionship or cosy stability or equality or reasonable discussions ending in empty, literate compromises. She wanted high pleasure with impossible restrictions in between. Without the restrictions the pleasure could not flourish; they made it grow up strong. That ladies and gentlemen, was the Trick! And Shel - old handsome, tacit, sexual fatalist - Shel was the perfect accomplice. He required no explanations, no titles or offices. Like her, he could keep his eye on the single thing that was important and not spoil it with greed and vulgarity, like the crazy people who couldn't control their appetites, and proved all their lives that they hated beauty and pleasure. It was as though Shel had been born knowing the Trick.

MARY FLANAGAN, U.S.A., in A View of Manhattan,
terceiro conto de "Bad Girls"


Agora, ao despedir-se do executivo da Exxon sentia-se cheia de convicção, como se todo o ADN nela reunido a tivesse determinado e se guardasse através dela para este romance compensatório. E não queria companheirismo nem estabilidade e conforto nem compatibilidade cultural nem igualdade nem discussões razoáveis que acabavam em acordos vazios e literatos. Queria prazer puro, com restrições impossíveis pelo meio. Sem as restrições o prazer não podia florescer; elas faziam-no ganhar força. Esse, senhoras e senhores, era o Truque! E Shel - o fatalista de sempre, belo, tácito, sexual - Shel era o cúmplice perfeito. Não exigia explicações, nem títulos nem cartórios. Como ela, conseguia não perder de vista a única coisa que era importante e não a estragar com a avidez e vulgaridade dos idiotas que não conseguiam controlar os seus apetites e demonstravam durante a vida inteira que odiavam a beleza e o prazer. Era como se Shel soubesse o Truque desde que nasceu.

She went out into the world again. All she saw there were a great many people pretending to be grown up, and all she knew was that her best energies seemed to have ebbed away in banks, restaurants, department stores, and school rooms without her knowing it, until she found herself, too late, a faded blonde. And those places were still there waiting for her, ready to suck out her vital forces in the name of restored stability. Wouldn't it be better to save what was left of those precious forces and squander them on Shel? Belatedly she kept her promise and called him.

MARY FLANAGAN, U.S.A., in A View of Manhattan,
terceiro conto de "Bad Girls"


Ela saiu e voltou ao mundo. O que viu foi uma grande quantidade de gente que fingia ser adulta e o que percebeu foi que o melhor da sua energia parecia ter-se perdido em bancos, restaurantes, armazéns e salas de aula sem ela saber, até que se viu, tarde demais, loura e sem brilho. E esses sítios continuavam à espera dela, prontos a sugar-lhe a vitalidade em nome da estabilidade recuperada. Não seria melhor poupar o que restava dessa vitalidade preciosa e esbanjá-la com Shel? Cumpriu a promessa atrasada e telefonou-lhe.

2012/11/30


Lydia may not have been the world's greatest cook, but she was almost certainly the slowest. She was a fantasizer and a drunk. Moreover, she was addicted to opera. Now imagine what mealtimes at 99 Copenhagen Crescent, NW3, must have been like: tantalizing aromas accompanied by interminable waits, Callas at full decibels, the ever-present bottle of Bordeaux, the not infrequent failures which must, out of sheer physical necessity, be consumed. Her family suffered patiently.

MARY FLANAGAN, U.S.A., in Cream Sauce, primeiro conto de "BAD GIRLS" (1984)


Lydia poderia não ser a melhor cozinheira do mundo, mas era quase de certeza a mais lenta. Era fantasiosa e bêbeda. Além disso, era viciada em ópera. Agora imaginem como seriam as refeições no 99 de Copenhagen Crescent, NW3: aromas inebriantes acompanhados de esperas intermináveis, Callas em  plenos decibéis, a sempre presente garrafa de Bordeaux, os não raros insucessos que tinham, por mera necessidade física, de ser consumidos. A famíla sofria, paciente.

2012/11/07

To SHAKESPEARE and Obama: now is the winter of our concern made joyous summer by this son of Hope.

2012/10/25

 
  Ana Cardoso - Lx 1994

PASTA DAY
Winter Garden Macaroni

300gr wheat elbow or shell macaroni
1 iogurt
1/2 cup chopped green onion

Cook macaroni al dente in salt water and drain. Add iogurt and onion and toss lightly to blend. Serve hot. To make it a spring/summer dish, cool in refrigerator for at least three hours.
             (in Los Angeles Times Magazine, U.S.A., 1975)


DIA MUNDIAL DA MASSA
Macarrão de Inverno

300gr de cotovelos ou búzios
1 iogurte
meia chávena de cebolinho picado

Cozer o macarrão al dente em água e sal e escorrer. Misturar com o iogurte e o cebolinho. Servir quente. No Verão levar ao frigorífico durante três horas.

2012/09/27

 

À bientôt, chérie, nous nous arrêterons une semaine au plus à Chantepleurs, et nous serons chez toi vers le 10 mai. Nous allons donc nous revoir après plus de deux ans. Et quels changements! Nous voilà toutes deux femmes: moi la plus heureuse des maitresses, toi la plus heureuse des mères. Si je ne t'ai pas écrit, mon cher amour, je ne t'ai pas oubliée. Et mon filleul, ce singe, est-il toujours joli? Me fait-il honneur? Il aura plus de neuf mois. Je voudrais bien assister à ses premiers pas dans le monde; mais Macumer me dit que les enfants précoces marchent à peine à dix mois. Nous taillerons donc des bavettes, en style du Blésois. Je verrai si, comme on le dit, un enfant gâte la taille.

P.S. - Si tu me réponds, mère sublime, adresse ta lettre à Chantepleurs, je pars.

HONORÉ DE BALZAC, França, in Mémoires de Deux Jeunes Mariées, 1841


Até breve, querida, ficaremos no máximo uma semana em Chantepleurs, e estaremos em tua casa por volta de 10 de Maio. Voltaremos a ver-nos ao fim de mais de dois anos. E quantas mudanças! Eis-nos ambas mulheres: eu a mais feliz das amantes, tu a mais feliz das mães. Se não te escrevi, meu amor querido, também não te esqueci. E o meu afilhado, esse macaco, continua bonito? Está à minha altura? Deve ter mais de nove meses. Gostaria muito de assistir aos seus primeiros passos: mas Macumer diz que as crianças, mesmo precoces, raramente andam aos dez meses. Faremos babetes à moda de Blésois. Verei se, como dizem, uma criança estraga a figura.

P.S. - Se me responderes, mãe sublime, envia a carta para Chantepleurs, agora vou.

2012/09/05


A quatre heures du matin, l’été
Le sommeil d’amour dure encore.
Sous les bocages s’évapore
L’odeur du soir fêté.

Là-bas, dans leur vaste chantier
Au soleil des Hespérides,
Déjà s’agitent ― en bras de chemise ―
Les Charpentiers.

Dans leurs Déserts de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
Où la ville
Peindra de faux cieux.

O, pour ces Ouvriers charmants
Sujets d’un roi de Babylone,
Vénus! quitte un instant les Amants
Dont l’âme est en couronne.

O Reine des Bergers,
Porte aux travailleurs l’eau-de-vie,
Que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer à midi.


ARTHUR RIMBAUD, França
in “Une Saison en Enfer”, 1873



Às quatro da manhã, no Verão
O sono de amor dura ainda.
Sob os arbustos evapora-se
O odor da noite festejada.

Lá longe, no vasto estaleiro
Ao sol das Hespérides,
Já se agitam ― em mangas de camisa ―
Os Carpinteiros.

Nos Desertos de espuma, tranquilos,
Preparam os lambris preciosos
Onde a cidade
Pintará falsos céus.

Oh, pelos Operários encantadores
Súbditos dum rei da Babilónia,
Vénus! deixa um instante os Amantes
Cuja alma se engalanou.

Ó Rainha dos Pastores,
Leva aos trabalhadores a aguardente,
Que as suas forças se aquietem
Enquanto esperam o banho no mar ao meio-dia.

2012/08/26


Não sei o que é o amor
Nem tenho o que te contar.
Bom seria se o tempo
Fosse carta de jogar.

Era uma hora serena
Das que habitam o luar.
Mas a tua alma era pequena
Não sabia lá morar.

Se as estrelas do oceano
Me levassem na maré,
Seria sombra de pano
Procurando-te sem fé.

2012/08/01


 
 



Não sabes o que é o amor
Nem tens o que me contar.
Bom seria se o tempo
Fosse carta de jogar.

Era uma hora serena
Das que habitam o luar.
Mas a minha alma era pequena
Não sabia lá morar.

Se as estrelas do oceano
Te levassem na maré,
Serias sombra de pano
Procurando-me sem fé.

2012/07/27

L. também disse: «A pessoa errada somos nós. O brilho descobre a sombra desconhecida, a sedução ateia tudo e o fogo escapa-se.» Então, mas o desejo é assim. «Até um pequeno carácter pode seduzir mais do que o amor. Quase sem nada. Sexo, cabeça ou coração.» Mas o desejo é assim. Mais tarde: RILKE e o sentido de inteiro. L. é muito novo - sabedoria e amor não têm idade.
L. disse-me: «Porque é que eu sinto ISTO TUDO pela pessoa errada?» Mas ele sabe que acontece aos melhores. Como quando ocorrem tragédias, sofremos desgostos ou doenças graves e nos dizem: no melhor pano cai a nódoa.

2012/06/10

Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se dúa outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.


LUÍS VAZ DE CAMÕES, Portugal,
c. 1570

2012/05/27

A primeira surpresa foi o assunto: Domingos observou que tinha comprado tudo o que é necessário para escrever, mas faltava-lhe o assunto. Tinha-se esquecido do assunto; não pode uma pessoa lembrar-se de tudo, nem admira, a primeira vez... E o assunto não vinha. Havia umas palavras que apareciam em cima de textos por escrever, palavras impressas em letras maiores, distintas, mas estas palavras sofriam de falta de novidade, estavam cansadas de servir de título a tantos, que precisam de ganhar dinheiro para levar para casa, coitados.

JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS, Portugal,
in  "O Homem Que Não Sabe Escrever ", 1917

2012/05/23

Elles burent en silence, courtoises comme les bêtes qui font trêve au bord d'un ruisseau. Elles étaient diversement marquées par l'émotion: Jane rouge aux pommettes, et Fanny pâle, avec des cernes charbonnés autour des yeux, et une bouche démaquillée, d'un mauve nègre. Fanny fit entendre, après qu'elle eut bu, un grand soupir de fatigue, et Jane esquissa de nouveau un geste de sa main autour de la joue arrondie, sans la toucher:

COLETTE, França, La seconde, 1929



Elas beberam em silêncio, com a cortesia dos animais que fazem uma pausa à beira dum regato. A emoção marcava-as de maneira diversa: Jane com as maçãs do rosto coradas, e Fanny pálida, com olheiras tom de carvão em redor dos olhos, e uma boca sem pintura, dum malva negro. Fanny fez ouvir, depois de ter bebido, um grande suspiro de cansaço, e Jane esboçou de novo um gesto com a mão em volta da face arredondada, sem a tocar:

2012/05/13


Si ça ne va pas
Tu peux toujours aller la voir
Tu demanderas
La Poésie
On t'ouvrira
Même si elle n'est pas là
D'ailleurs elle n'est pas là
Mais dans la tête d'un fou
Ou bien chez des voyous
Habillés de chagrin
Qui vont par les chemins
Chercher leur bonne amie
La Poésie

LÉO FERRÉ, France, 1976


Se a coisa correr mal
Podes sempre ir vê-la
Perguntas
Pela Poesia
Abrem-te a porta
Mesmo que ela não esteja
Aliás ela não está
Está na cabeça dum louco
Ou junto dos vagabundos
Que se cobrem de desgosto
E vão pelos caminhos
Em busca da sua boa amiga
A Poesia

2012/04/25


A life on the ocean wave! A home on the rolling deep!
Where the scattered waters rave, and the winds their revels keep!
A life on the ocean wave! A home on the rolling deep!
Where the scattered waters rave, and the winds their revels keep!
Like an eagle caged I pine, on this dull unchanging shore.
Oh give me the flashing brine! The spray and the tempest roar!
A life on the ocean wave! A home on the rolling deep!
Where the scattered waters rave, and the winds their revels keep!
The winds, the winds, the winds their revels keep!
The winds, the winds, the winds their revels keep!


EPES SARGENT, U.S.A., 1838
 
Uma vida na crista da onda! Um lar no abismo do oceano!
Onde as águas tumultuosas se erguem e os ventos se entregam à diversão!
Uma vida na crista da onda! Um lar no abismo do oceano!
Onde as águas tumultuosas se erguem e os ventos se entregam à diversão!
Como águia presa eu definho, nesta costa escura e estagnada.
Ó dai-me o sal faiscante! A espuma e o rugir da tempestade!
Uma vida na crista da onda! Um lar no abismo do oceano!
Onde as águas tumultuosas se erguem e os ventos se entregam à diversão!
Os ventos, os ventos, os ventos se entregam à diversão!
Os ventos, os ventos, os ventos se entregam à diversão!

2012/04/15

A emoção de um dia ter chegado ao Viaduto do Chá, no centro de São Paulo, a maior cidade da América do Sul, e toda a gente falar português. Algo de nascença, que não precisa de tradução. Depois, ao correr do tempo, percebi aquele verso de Noel Rosa, "é brasileiro, já passou de português". Língua que a meio bifurca e segue o seu caminho, para um lado Ipanema, para outro Madureira, para um lado gaúcho, para outro sertanejo, e ainda veio o Rosa, João Guimarães, virar o sertão do avesso.
A minha pátria são muitas línguas portuguesas. Rendição é um termo de guerra. Pressupõe resistência e depois desistência. Como nunca estive em guerra com o Brasil prefiro trespasse, no sentido sexual.

ALEXANDRA LUCAS COELHO, Portugal,
Atlântico-Sul, "Público", 15.04.2012

2012/04/03


ANA CARDOSO - desenho (pormenor) - 2002

About three years and a half ago, a disturbance very similar to the present was caused by the disappearance of this same Marie Rogêt from the parfumerie of Monsieur le Blanc, in the Palais Royal. At the end of a week, however, she reappeared at her customary comptoir, as well as ever, with the exception of a slight paleness not altogether usual. It was given out by Monsieur le Blanc and her mother that she had merely been on a visit to some friends in the country; and the affair was speedily hushed up. We presume that the present absence is a freak of the same nature, and that, at the expiration of a week or, perhaps, a month, we shall have her among us again.

EDGAR ALLAN POE, E.U.A.
in "The Mystery of Marie Rogêt", 1845 



Há cerca de três anos e meio, uma perturbação muito semelhante à actual teve origem no desaparecimento da mesma Marie Rogêt da parfumerie de Monsieur le Blanc, no Palais Royal. Ao fim de uma semana, porém, reapareceu no seu comptoir habitual, tão bem como sempre, à excepção duma leve palidez nada usual. Foi comunicado por Monsieur le Blanc e pela mãe dela que ela fora somente visitar uns amigos ao campo; e rapidamente o caso foi silenciado. Presumimos que a actual ausência seja um logro da mesma natureza e que, ao fim duma semana, ou talvez de um mês, voltaremos a tê-la de novo entre nós.

2012/03/27

Gazon insoucieux de nos péchés
comme par hasard au nombre de
sept.
Un prisme vous capture arc-en-
ciel qui finissez vos jours en prison.
Insensible au chatoiement de vos
crimes l'ice-cream prouve l'ingé-
nuité de nos dinettes.

RAYMOND RADIGUET, França,
"Couleurs sans Danger", 1920



Relva indiferente aos nossos pecados
como por acaso em número de
sete.
Um prisma aprisiona-vos arco-
íris que acabais vossos dias na prisão.
Insensível ao cintilar dos vossos
crimes o ice-cream comprova a inge-
nuidade dos nossos jantarinhos.

2012/01/30

Ich habe ewig an dir zu atmen; meine Brust wird nie aufhören dich in sich zu ziehn. Du bist die göttliche Herrlichkeit, das ewige Leben in der lieblichsten Hülle. - Ach Heinrich, du weisst das Schicksal der Rosen; wirst du auch die welken Lippen, die bleichen Wangen mit Zärtlichkeit an deine Lippen drücken? Werden die Spuren des Alters nicht die Spuren der vorübergegangenen Liebe sein? - O! könntest du durch meine Augen in mein Gemüt sehn! aber du liebst mich, und so glaubst du mir auch. Ich begreife das nicht, was man von der Vergänglichkeit der Reize sagt. O! sie sind unverwelklich. Was mich so unzertrennlich zu dir zieht, was ein ewiges Verlangen in mir geweckt hat, das ist nicht aus dieser Zeit. Könntest du nur sehn, wie du mir erscheinst, welches wunderbare Bild deine Gestalt durchdringt und mir überall  entgegen leuchtet, du würdest kein Alter fürchten. Deine irdische Gestalt ist nur ein Schatten dieses Bildes. Die irdischen Kräfte ringen und quellen, um es festzuhalten, aber die Natur ist noch unreif; das Bild ist ein ewiges Urbild, ein Teil der unbekannten heiligen Welt.

NOVALIS, Alemanha,
in Heinrich von Ofterdingen, 1799



«Tu és o ar que tenho de respirar eternamente: o meu peito nunca deixará de te trazer dentro de si. Tu és a magnificência divina, a vida eterna sob o invólucro mais amável.» - «Infelizmente, Heinrich, conheces o destino das rosas: os lábios murchos e as faces pálidas, ainda as encostarás aos lábios com ternura? As marcas da idade não são os vestígios do amor passado?» - «Ah, se pudesses ler na minha alma através dos meus olhos! Mas tu amas-me, por isso acreditas em mim. Não compreendo como se pode falar de encantos passageiros. Não, não podem murchar. O que me liga a ti indissoluvelmente, o que despertou em mim um desejo eterno não é uma coisa que dependa do Tempo. Ah, se pudesses ver-te como eu te vejo, a imagem maravilhosa que brilha através da tua forma sensível e ilumina tudo, dentro e fora de mim, não recearias velhice nenhuma. A tua forma terrestre mais não é do que uma sombra dessa imagem; as forças telúricas lutam e batem-se para a manter estável, mas a natureza ainda não alcançou a maturidade; quanto à imagem, é um arquétipo eterno, um elemento do mundo divino e desconhecido.»

2012/01/26

Die Sprache, sagte Heinrich, ist wirklich eine kleine Welt in Zeichen und Tönen. Wie der Mensch sie beherrscht, so möchte er gern die grosse Welt beherrschen, und sich frei darin ausdrücken können. Und eben in dieser Freude, das, was ausser der Welt ist, in ihr zu offenbaren, das tun zu können, was eigentlich der ursprüngliche Trieb unsers Daseins ist, liegt der Ursprung der Poesie.
Es ist recht übel, sagte Klingsohr, dass die Poesie einen besondern Namen hat, und die Dichter eine besondere Zunft ausmachen. Es ist gar nichts Besonderes. Es ist die eigentümliche Handlungsweise des menschliches Geistes. Dichtet und trachtet nicht jeder Mensch in jeder Minute? - Eben trat Mathilde ins Zimmer, als Klingsohr noch sagte: Man betrachte nur die Liebe. Nirgends wird wohl die Notwendigkeit der Poesie zum Bestand der Menschheit so klar, als in ihr. Die Liebe ist stumm, nur die Poesie kann für sie sprechen.
Oder die Liebe ist selbst nichts, als die höchste Naturpoesie. Doch ich will dir nicht Dinge sagen, die du besser weisst als ich.

NOVALIS, Alemanha,
in Heinrich von Ofterdingen, 1799



«A linguagem,» disse Heinrich, «é de facto um pequeno universo feito de signos e de sons. Tal como  domina a linguagem, o homem gostaria de dominar o vasto mundo e de poder expressar-se nele livremente. É precisamente nesta alegria de poder manifestar no universo o que está fora dele e de satisfazer o impulso verdadeiro e primordial do nosso ser, que se encontra a origem da poesia.»
«É na verdade lamentável,» disse Klingsohr, «que a poesia tenha um nome particular e que os poetas formem uma corporação à parte. A poesia não é uma coisa à parte. Ela é o modo de actividade próprio do espírito humano. Os homens não inventam e fantasiam a cada minuto?» - Mathilde entrou na sala, no momento em que Klingsohr acrescentava: «Basta considerarmos o amor. Em nenhuma outra coisa se revela tão claramente a necessidade da poesia para a permanência da espécie humana. O amor é mudo, só a poesia pode falar em nome dele.»
«Ou o próprio amor não é senão a mais alta natureza da poesia. Mas não quero ensinar-te coisas que conheces melhor do que eu.»

2012/01/24

Da hörte er jenes einfache Lied wieder. Er lief den Tönen nach. Auf einmal hielt ihn jemand am Gewande zurück. Lieber Heinrich, rief eine bekannte Stimme. Er sah sich um, und Mathide schloss ihn in ihre Arme. Warum liefst du vor mir, liebes Herz, sagte sie tiefatmend. Kaum konnte ich dich einholen. Heinrich weinte. Er drückte sie an sich. - Wo ist der Strom, rief er mit Tränen. Siehst du nicht seine blauen Wellen über uns? Er sah hinauf, und der blaue Strom floss leise über ihrem Haupte. Wo sind wir, liebe Mathilde? Bei unsern Eltern. Bleiben wir zusammen? Ewig, versetzte sie, indem sie ihre Lippen an die seinigen drückte, und ihn so umschloss, dass sie nicht wieder von ihm konnte. Sie sagte ihm ein wunderbares, geheimes Wort in den Mund, was sein ganzes Wesen durchklang. Er wollte es wiederholen, als sein Grossvater rief und er aufwachte. Er hätte sein Leben darum geben mögen, das Wort noch zu wissen.

NOVALIS, Alemanha,
in Heinrich von Ofterdingen, 1799


Então ele voltou a ouvir a canção singela. Correu ao encontro da melodia. De repente alguém lhe pegou nas vestes. «Querido Heinrich,» exclamou uma voz conhecida. Voltou-se e Mathilde prendeu-o nos braços. «Porque fugias à minha frente, meu coração, meu querido?» disse ela a recobrar fôlego. «Eu mal podia alcançar-te.» Heinrich chorava. Apertou-a contra o peito. «Onde está o rio?» exclamou por entre lágrimas. «Não vês as águas azuis por cima de nós?» Ele ergueu os olhos; a corrente azul fluía suavemente sobre as duas cabeças. «Onde estamos, querida Mathilde?» «Em casa de nossos pais.» «Ficaremos juntos?» «Eternamente», respondeu ela encostando os lábios aos dele e enlaçando-o tão firmemente, que já não podia separar-se. Pronunciou-lhe na boca uma palavra maravilhosa e mágica, que ressoou em todo o seu ser. Ele queria repeti-la, quando o avô o chamou e ele acordou. De bom grado teria dado a vida, para saber de novo a palavra.

2012/01/01

Que se o céo fora quadrado,
não fora redondo, senhor.
E se o Sol fora azulado,
d'azul fora a sua cor,
e não fora assi dourado.
E porque está governado
por seus cursos naturais,
neste mundo onde morais
nenhum homem aleijado,
se for manco e corcovado,
não corre por isso mais.

E assi os corpos celestes
vos trazem tão compassados,
que todos quantos nacestes
se nacestes e crecestes
primeiro fostes gerados.
E que fazem os poderes
dos sinos resplandecentes?
Fazem que todalas gentes
ou são homens ou molheres,
ou crianças inocentes.

GIL VICENTE, Portugal,
in "Auto da Feira", 1527

2011/12/24




Miranda. I am your wife, if you will marry me;
If not, I'll die your maid. To be your fellow
You may deny me; but I'll be your servant,
Whether you will or no.
Ferdinand. My mistress, dearest,
And I thus humble ever.
Miranda. My husband then?
Ferdinand. Ay, with a heart as willing
As bondage e'er of freedom. Here's my hand.
Miranda. And mine, with my heart in't; and now
farewell
Till half an hour hence.
Ferdinand. A thousand thousand!
Exeunt [Ferdinand and Miranda in different directions]

WILLIAM SHAKESPEARE, U.K.,
in "The Tempest", 1611


Miranda. Sou vossa mulher, se comigo casardes;
Se não, por vós morrerei donzela. Para ser vossa igual
Podeis recusar-me; mas vossa serva serei,
Queirais ou não.
Ferdinand. Senhora minha, a mais querida,
Sempre assim vos servirei.
Miranda. Meu marido então?
Ferdinand. Sim, com coração mais desejoso
Que servidão jamais de alcançar a liberdade. Tomai minha mão.
Miranda. E a minha, com meu coração nela; agora
adeus
Até daqui a meia hora.
Ferdinand. Que fossem mil!
Exeunt. [Ferdinand e Miranda em direcções opostas].

2011/12/05

2011/12/04

If hands could free you, heart,
Where would you fly?
Far, beyond every part
Of earth this running sky
Makes desolate? Would you cross
City and hill and sea,
If hands could set you free?

I would not lift the latch;
For I could run
Through fields, pit-valleys, catch
All beauty under the sun -
Still end in loss:
I should find no bent arm, no bed
To rest my head.


PHILIP LARKIN, U.K.
in The North Ship, XXIII, 1945


Se as mãos conseguissem libertar-te, coração,
Para onde voarias?
Longe, para lá de todos os lugares
Da Terra que este céu veloz
Torna desolados? Atravessarias
Cidades, colinas e mar,
Se as mãos conseguissem libertar-te?

Não partiria;
Porque podia atravessar
Campos, vales profundos, surpreender
Toda a beleza que o sol dá -
E acabar sem nada:
Sem encontrar curva de braço, nem cama
Onde encostar a cabeça.

2011/10/30

WILLIAM BLAKE
I like to hole up in hotel suites. I like to turn off the lights and crank the AC. I like temperature-controlled and contained environments. I like to sit in the dark and let my mind race. I was set to meet Bill Stoner the next morning. I ordered a room-service dinner and a big pot of coffee. I turned out the lights and let the redhead take me places.
I knew things about us. I sensed other things. Her death corrupted my imagination and gave me exploitable gifts. She taught me self-sufficiency by negative example. I possessed a self-preserving streak at the height of my self-destruction. My mother gave me the gift and the curse of obsession. It began as curiosity in lieu of childish grief. It flourished as a quest for dark knowledge and mutated into a horrible thirst for sexual and mental stimulation. Obsessive drives almost killed me. A rage to turn my obsessions into something good and useful saved me. I outlived the curse. The gift assumed its final form in language.

James Ellroy
in My Dark Places, An L.A. Crime Memoir p.206
© 1996 James Ellroy
posted by retrovisor.blogs.sapo.pt


Gosto de me refugiar em suites de hotel. Gosto de desligar as luzes e de regular o ar condicionado. Gosto de ambientes circunscritos e com a temperatura controlada. Gosto de me sentar no escuro e de dar largas ao pensamento. Ia encontrar-me com Bill Stoner na manhã seguinte. Pedi o jantar no quarto e uma grande cafeteira de café. Apaguei as luzes e deixei a ruiva levar-me por aí.
Eu sabia coisas sobre nós. E sentia outras. A morte dela  corrompeu a minha imaginação e deu-me certos dons para explorar. Ela ensinou-me a autosuficiência pelo exemplo negativo. Eu possuía um laivo de autoconservação no auge da minha autodestruição. A minha mãe deu-me o dom e a maldição da obsessão. Começou como curiosidade no lugar da dor infantil. Floresceu como demanda do saber obscuro e transmutou-se numa sede horrível de estímulo sexual e mental. Instintos obsessivos quase me mataram. A raiva de transformar as minhas obsessões em algo de bom e útil salvaram-me. Sobrevivi à maldição. O dom assumiu a sua forma definitiva na linguagem.

2011/10/18

I remember, in no particular order:
- a shiny inner wrist;
- steam rising from a wet sink as a hot frying pan is laughingly tossed into it;
- gouts of sperm circling a plughole, before being sluiced down the full length of a tall house;
- a river rushing nonsensically upstream, its wave and flow lit by half a dozen chasing torchbeams;
- another river, broad and grey, the direction of its flow disguised by a stiff wind exciting the surface;
- bathwater long gone cold behind a locked door.

This last isn't something I actually saw, but what you end up remembering isn't always the same as what you have witnessed.

JULIAN BARNES, U.K., in The Sense of an Ending, 2011
THE MAN BOOKER PRIZE 2011



Lembro, sem nenhuma ordem definida:
- a face interna dum pulso a brilhar;
- vapor que sobe do lava-loiças molhado quando, entre risos, a frigideira quente é atirada lá para dentro;
- gotas de esperma à volta do ralo, antes de a água as arrastar ao longo duma casa alta;
- um rio que se precipita absurdamente contra a corrente, e o vaivém das águas iluminado por focos que investigam;
- outro rio, grande e cinzento, e a direcção do seu curso mascarada por um vento rijo que encrespa a superfície;
- água do banho há muito arrefecida por trás duma porta fechada.

Esta última não foi uma coisa que efectivamente eu visse, mas o que acabamos por recordar nem sempre é igual ao que presenciámos.

2011/10/03

That night a group of us went to Minsterworth in quest of the Severn Bore. Veronica had been alongside me. My brain must have erased it from the record, but now I knew it for a fact. She was there with me. We sat on a damp blanket on a damp riverside holding hands; she had brought a flask of hot chocolate. Innocent days. Moonlight caught the breaking wave as it approached. The others whooped at its arrival, and whooped off after it, chasing into the night with a scatter of intersecting torchbeams. Alone, she and I talked about how impossible things sometimes happened, things you wouldn't believe unless you'd witnessed them for yourself. Our mood was thoughtful, sombre even, rather than ecstatic.

JULIAN BARNES, U.K.,
in The Sense of an Ending, 2011




Nessa noite um grupo com alguns de nós foi a Minsterworth em demanda do Severn Bore. Veronica estivera junto de mim. O meu cérebro deve tê-lo apagado dos registos, mas sabia agora que era um facto. Sentámo-nos num cobertor húmido numa margem húmida de mãos dadas; ela tinha trazido um termo de chocolate quente. Dias inocentes. O luar apanhava o rebentar da onda, quando ela se aproximava. Os outros gritavam à chegada, e gritavam depois, perseguindo a noite e espalhando a luz dos archotes que se cruzavam. Sós, ela e eu falámos de coisas impossíveis que às vezes aconteciam, coisas em que não acreditaríamos se não as víssemos nós próprios. O nosso tom era sério, sombrio até, mais do que arrebatado.

2011/08/22




Of the things we fashioned for them that they might be comforted, dawn is the one that works. When darkness sifts from the air like fine soot and light spreads slowly out of the east then all but the most wretched of humankind rally. It is a spectacle we enjoy immortals, this minor daily resurrection, we will often gather at the ramparts of the clouds and gaze upon them, our little ones, as they bestir themselves to welcome the new day. What a silence falls upon us then, the sad silence of our envy. Many of them sleep on, of course, careless of our cousin's charming Aurora matutinal trick, but there are always the insomniacs, the restless ill, the lovelorn solitary tossing on their beds, or just the early-risers, the busy ones, with their knee-bends and their cold showers and their fussy little cups of black ambrosia. Yes, all who witness it greet the dawn with joy, more or less, except of course the condemned man, for whom first light will be the last, on earth.

JOHN BANVILLE, Irlanda,
in The Infinities, 2009



Das coisas que concebemos para poder confortá-los, o amanhecer é a que dá efeito. Quando a escuridão se separa do ar, fina como fuligem branda e a luz sai de leste e se espraia lentamente, então toda a espécie humana, com excepção dos mais desgraçados, recupera. É um espectáculo que nós, imortais, apreciamos, essa pequena ressurreição diária; quase sempre nos reunimos nos parapeitos das nuvens e fitamos lá em baixo os nossos petizes, enquanto eles se alvoroçam para acolher o novo dia. Abate-se então sobre nós um silêncio! O silêncio triste da inveja. Muitos deles ainda dormem, é claro, indiferentes ao fascinante truque matutino da nossa prima Aurora, mas há sempre os insones, os doentes agitados, os infelizes no amor, às voltas em camas solitárias, ou os simples madrugadores, atarefados com as flexões e os duches frios e as chaveninhas extravagantes de ambrósia negra. Sim, todos os que vêem o amanhecer saúdam-no com alegria maior ou menor, excepto obviamente o condenado, para quem a primeira luz será última, na Terra.

2011/07/06

Let thy chief terror be of thine own soul:
There, 'mid the throng of hurrying desires
That trample on the dead to seize their spoil,
Lurks vengeance, footless, irresistible
As exhalations laden with slow death,
And o'er the fairest troop of captured joys
Breathes pallid pestillence.
 
 
GEORGE ELIOT, U.K.
in "Daniel Deronda", 1876


Deixa que o teu maior terror seja da tua própria alma:
Lá, entre o tropel dos desejos inquietos
Que pisam os mortos para lhes saquear o espólio,
Espreita a vingança, infundada, irresistível
Qual sopro carregado de morte lenta,
E sobre a clara imensidão da alegria capturada
Há um bafo de pestilência esquálida.

2011/02/20




Greed showing shamelessly her naked money
And all love's wandering eloquence debased
To a collector's slang. Smartness in furs
And Beauty scratching miserably for food,
Honour self-sacrificed for Calculation
And reason stoned by mediocrity,
Freedom by power shamefully maltreated
And Justice exiled till Saint Geoffrey's Day.

W. H. AUDEN (1907-1973), U.K.
in “To a Writer on His Birthday”, 1935




A ganância mostra descaradamente o seu dinheiro nu
E toda a eloquência errante do amor se rebaixa
Em gíria de cobrador. A esperteza veste-se de peles
E a Beleza na miséria esgravata alimento,
A Honra sacrifica-se ao Calculismo
E a razão embebeda-se com mediocridade,
A Liberdade é vergonhosamente maltratada pelo poder
E a Justiça exilou-se até ao Dia de São Nunca.

2011/01/13


Then the wireless would project the rounded opinions of the Any Questions? panel: glib MP's, worldly bishops, professional wise men like A. J. Ayer, and amateur, self-made sages. Mum would award them interjectory ticks - «Talks a lot of sense» - or crosses - anything from «Stupid fool!» up to «Ought to be shot.» On another day the wireless would disgorge The Critics, a band of suave aesthetic experts droning on about plays we would never see and books that never came into the house. My brother and I would listen with a kind of stunned boredom, which was not just of the present, but anticipatory: if such opinion-giving and -receiving was what adulthood contained, then it seemed not merely unattainable, but actively undesirable.

JULIAN BARNES, U.K.,
in Nothing to Be Frightened Of, 2008



A telefonia emitia as opiniões perfeitas dos convidados de Any Questions? ― deputados loquazes, bispos mundanos, profissionais sérios como A. J. Ayer e sábios amadores, autodidactas. A minha mãe outorgava-lhes vistos exclamativos e aprovadores ― «Faz todo o sentido» ― ou cruzes de reprovação ― de «Imbecil!» a «Devia ser abatido.» De outras vezes a telefonia debitava The Critics, um bando de críticos literários suaves, que falavam interminavelmente de peças que nunca veríamos e de livros que nunca entravam lá em casa. Eu e o meu irmão ouvíamos com uma espécie de tédio aturdido que, do presente, via já o futuro: se era neste dar e receber de opiniões que consistia a idade adulta, então ela parecia-nos não só inatingível como francamente indesejável.

2010/12/30


At dawn she lay with her profile at that angle
Which, when she sleeps, seems the carved face of an angel.
Her hair a harp, the hand of a breeze follows
And plays, against the white cloud of the pillows.
Then, in a flush of rose, she woke, and her eyes that opened
Swam in blue through her rose flesh that dawned.
From her dew of lips, the drop of one word
Fell like the first of fountains: murmured
«Darling,» upon my ears the song of the first bird.
«My dream becomes my dream,» she said, «come true.
I waken from you to my dream of you.»
Oh, my own wakened dream then dared assume
The audacity of her sleep. Our dreams
Poured into each other's arms, like streams.


STEPHEN SPENDER, U.K., Daybreak, c. 1947



Ao amanhecer está deitada com o perfil nesse ângulo
Que, adormecido, parece o rosto cinzelado dum anjo.
O cabelo é harpa, a mão da brisa segue-o
E toca, sobre a nuvem branca de almofadas.
Então, num assomo rosa, despertou, e os olhos que se abriram
Nadaram em azul por entre a rósea carne que surgia.
Do orvalho feito lábios, caiu a gota duma palavra
Como a primeira das fontes: «Querido,» foi o canto
Que a primeira ave aos meus ouvidos murmurou.
«O meu sonho torna-se meu sonho,» disse, «feito realidade.
Acordo de ti para sonhar contigo.»
Ah, o meu próprio sonhar acordado ousou então assumir
A audácia do sono dela. Os nossos sonhos
Correram para os braços um do outro, como cursos de água.

2010/10/09

William Butler Yeats, U.K., 1865-1939

Time that is intolerant
Of the brave and the innocent,
And indifferent in a week
To a beautiful physique,
Worships language and forgives
Everyone by whom it lives;
Pardons cowardice, conceit
Lays its honours at their feet

W. H. AUDEN, U.K.
in "In Memory of W. B. Yeats", 1939
(posted by cyberiticus.blogspot.com)



O tempo que não tolera
Os bravos e os inocentes,
E numa semana se desinteressa
De um físico atraente,
Venera a linguagem e perdoa
A todos os que ela segue;
Perdoa a cobardia, e a vaidade
Lança-lhes honras aos pés.

2010/08/16


«No, Lily, I didn't know. How could I tell?»
«That's part of it, you see. She just got three letters from college friends, and they're all busy acting like boys. She wants to try new things. Which for her means anything that isn't the missionary position.»
«... Why's it called the missionary position?»
«Because the missionaries,» said Lily, «told the natives to stop doing it like dogs and start doing it like missionaries.»
«Christ, the nerve of it. No, really. The nerve of it. Still. Fascinating.»

MARTIN AMIS, U.K,
in The Pregnant Widow, 2010




- Não, Lily, eu não sabia. Como podia adivinhar?
- Faz parte, percebes? Ela acabou de receber três cartas de amigos da faculdade, que andam ocupadíssimos a agir como rapazes. E ela quer experimentar coisas novas. O que para ela equivale a tudo o que não seja a posição do missionário.
- Porque é que se chama posição do missionário?
- Porque os missionários - disse Lily, - diziam aos nativos que deixassem de fazer aquilo como os cães e passassem a fazer como os missionários.
- Céus, que lata. Não, a sério. Que lata. Mas ainda assim. É fascinante.

2010/07/18


Snout. Doth the moon shine that night we play our play?
Bottom. A calendar, a calendar! Look in the almanack; find out moonshine, find out moonshine.
Quince. Yes, it doth shine that night.
Bottom. Why, then may you leave a casement of the great chamber window, where we play, open; and the moon may shine in at the casement.

WILLIAM SHAKESPEARE, U.K.,
in A Midsummer Night's Dream, Act Three, Scene I (1594)



Snout. Há luar na noite em que representamos a nossa peça?
Bottom. Um calendário, um calendário! Vede no almanaque; procurai luar, procurai luar.
Quince. Sim, nessa noite há luar.
Bottom. Então podereis deixar uma portada da janela da grande câmara, onde representamos, aberta; e o luar há-de passar pela portada.

2010/06/07