2016/05/15


Now, on this first Sunday of sunshine
we make this pilgrimage to be where
grass and bushes show the season in.

There is blossom there: the white sort 
and he red; dogs; and by the lake one duck
treads upon another for our pleasure.

There is movement: of birds behind leaves;
worms beneath the earth; and families
which were unrecognizable before Lowry.

We are not aware of how we fit into
the scene; after an hour we feel boredom, take
a last look at the trodden duck, and go away.

EDWIN BROCK, UK, An Idyll,1959



Hoje, neste primeiro domingo de sol
fazemos esta peregrinação para ir onde
erva e arbustos mostram que a estação chegou.

Há ali flores: das brancas
e das encarnadas; cães; e ao pé do lago um pato
monta outro para nossa satisfação.

Há movimento: de pássaros atrás de folhas;
bichos debaixo da terra; e famílias
que eram irreconhecíveis antes de Lowry.

Não nos damos conta de como encaixamos
na cena; ao fim de uma hora estamos fartos, deitamos
um último olhar ao pato amassado, e vamo-nos embora.

2016/04/28


Registo três expressões cujo significado desconhecia. Obras mortas: parte do casco de uma embarcação que não está submersa; Obras vivas: parte submersa do casco de uma embarcação; Linha de água: linha que separa as obras mortas das obras vivas.
A linguagem náutica, porque lida com a vida e a morte, é extremamente precisa. Talvez por isso seja também extremamente poética.

ANA CRISTINA LEONARDO, Portugal
in "Diário do Farol A Ilha, a Cadela e Eu", 2016

2016/04/07


And so he and Nina met, and they became lovers, but he was still trying to win Tanya back from her husband, and then Tanya fell pregnant, and then he and Nina fixed a day for their wedding, but at the last minute he couldn’t face it so failed to turn up and ran away and hid, but still they persevered and a few months later they married, and then Nina took a lover, and they decided their problems were such that they should separate and divorce, and then he took a lover, and they separated and put in the papers for a divorce, but by the time the divorce came through they realised they had made a mistake and so six weeks after the divorce they remarried, but still they had not resolved their troubles. And in the middle of it all he wrote to his lover Yelena, ‘I am very weakwilled and do not know if I will be able to achieve happiness.’

JULIAN BARNES, UK, in The Noise of Time, 2015


E então ele e Nina conheceram-se, e tornaram-se amantes, mas ele continuava a tentar reconquistar Tanya ao marido, e foi então que Tanya ficou grávida, e depois ele e Nina marcaram um dia para o casamento, mas à última hora ele não foi capaz e por isso não apareceu, fugiu e escondeu-se, mas ainda assim persistiram e daí a uns meses casaram, e depois Nina arranjou um amante e concluíram que os problemas eram tantos que deviam separar-se e tratar do divórcio, e ele então arranjou uma amante e separaram-se e meteram os papéis para o divórcio, mas quando o divórcio saiu viram que tinham cometido um erro e assim, seis semanas após o divórcio voltaram a casar, mas ainda não tinham resolvido os problemas. E no meio disto tudo ele escreveu à sua amante Yelena: «Tenho muito pouca força de vontade e não sei se conseguirei alcançar a felicidade.»

2016/03/11


You are so civilized, so alert
In your tunnel, arching the drilled brain;
So dexterous in control
Of the tricky signals, the obvious gain.
I am outside, a truant soul,
Deep in the Word, stung by the dirt
Of primal clues which you disdain.

JACK CLEMO, U.K. in Outsider, 1958


És tão civilizado, tão alerta
No teu túnel, na malícia do cérebro amestrado;
Tão hábil a controlar
Os sinais ardilosos, o proveito óbvio.
Eu estou cá fora, alma prevaricadora,
Absorta na Palavra, ferida pela imundície
Das pistas primais que tu desdenhas.



2016/01/13


Les femmes connaissent leur arme. Il n´était pas necessaire d'apprendre à Suzanne qu'elle était devenue une force redoutable et charmante... Quand elle retrouva sa chambre, les deux tilleuls, le frêne, les glycines, les roses, les glaïeuls, les merles, les rouge-gorges, fils de ceux d'antan, les moineaux et les colombes, après un moment de mélancolie - souvenir de sa servitude - ele eut un grand éclair de joie...

J. H. ROSNY, França,
in La Jeune Vampire, 1820

As mulheres conhecem as suas armas. Não era necessário informar Suzanne de que se tornara uma força temível e encantadora... Quando reencontrou o seu quarto, as duas tílias, o freixo, as glicínias, as rosas, os gladíolos, os melros, os pintarroxos, filhos dos de outrora, os pardais e as pombas após um momento de melancolia - lembrança da sua servidão - teve uma grande explosão de alegria...

2016/01/01

 
 

E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário comer! Ah! Comer - que portentosa empresa para nossos Pais veneráveis! Sobretudo desde que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada) tendo provado os deleites fatais da carne, já não encontravam sabor, nem fartura, nem decência, nos frutos, nas raízes, e nos bagos do tempo da sua Animalidade. Certamente, as boas carnes não faltavam no Paraíso. Delicioso seria o salmão primitivo - mas nadava alegremente nas águas rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos com os grãos que o Criador considerara bons - mas voavam nos céus, em triunfal segurança. O coelho, a lebre - que fugas ligeiras no mato cheiroso!... E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuía o anzol nem a seta. Por isso, sem cessar rondava em torno das lagoas, nas ribas do mar, onde casualmente encalhava, boiando,  algum cetáceo morto. Mas esses achados de abundância eram raros - e o triste casal humano, nas suas marchas famintas pela borda das águas, só conquistava, aqui e além, na rocha ou na areia revolta, algum feio caranguejo em cuja dura casca os seus beiços se esgaçavam. Essas solidões marinhas andavam também infestadas por bandos de feras esperando, como Adão, que a vaga rolasse os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes, nossos Pais, já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam desconsoladamente, sentindo o passo fofo do horrendo espeleu, ou o bafo dos ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca indiferença da Lua!

JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS, Portugal,
em  Adão e Eva no Paraíso, "Contos", 1897

2015/11/15


Quand nous marchons seuls dans les bois, sa main passée autour de ma taille, la mienne sur son épaule, son corps tenant au mien, nos têtes se touchant, nous allons d'un pas égal, par un mouvement uniforme et si doux, si bien le même, que, pour des gens qui nous verraient passer, nous paraîtrions un même être glissant sur le sable des allées, à la façon des immortels d'Homère. Cette harmonie est dans le désir, dans la pensée, dans la parole. Quelquefois, sous la feuillée encore humide d'une pluie passagère, alors qu'au soir les herbes sont d'un vert lustré par l'eau, nous avons fait des promenades entières sans nous dire un seul mot, écoutant le bruit des gouttes qui tombaient, jouissant des couleurs rouges que le couchant étalait aux cimes ou broyait sur les écorces grises.
...................................................................
Et nous rentrons toujours plus amoureux l'un de l'autre. Cet amour entre deux époux semblerait une insulte à la société dans Paris. Il faut s'y livrer comme des amants, au fond des bois.

H. de BALZAC, França,
in Mémoires de Deux Jeunes Mariées, 1841


Quando caminhamos sozinhos pelos bosques, a mão dele à volta da minha cintura, a minha no ombro dele, o seu corpo junto ao meu e as nossas cabeças unidas, seguimos com passo igual, num movimento uniforme e tão suave, tão idêntico, que, para pessoas que nos vissem passar, pareceríamos um mesmo ser a deslizar no saibro dos carreiros, à maneira dos imortais de Homero. Esta harmonia está no desejo, no pensamento, na palavra. Por vezes, sob a folhagem ainda húmida após uma chuva passageira, quando ao entardecer as ervas são de um verde polido pela água, já nós demos voltas e voltas sem dizer uma única palavra, escutando o som das gotas que caíam, apreciando o vermelho das cores que o poente estendia nos cumes ou juntava aos troncos cinzentos.
...................................................................
E voltamos sempre mais apaixonados um pelo outro. Este amor entre esposos pareceria um insulto à sociedade, em Paris. Temos de nos entregar a ele como amantes, embrenhando-nos nos bosques.

2015/10/07



O abade, dias depois, reconciliado com a desgraça, entrava na residência, e perguntava a Eufémia:
- Ó rapariga, tu tens irmão no Brasil?
- Porque perguntas isso, ó idolatrado? ...
-É que, se tivesses, qualquer dia ele entrava por aí dentro barão; e eu, nesse caso, precisava ir desde já deitando o olho a quem me viesse governar a casa.
- Isso é o que tu querias, idolatrado!
E punha-se a catá-lo.
Eufémia, quando era costureira de Madama Guichard, teve um segundo-sargento a quem chamava o seu idolatrado. Depois desse teve nove, uma súcia, incluso o abade, todos idolatrados. Ela ardera muito sem se gastar, como a sarça-de-moisés. Cada vez mais gorda e frescal. O abade, em momentos de rapto religioso, dizia cheio de unção: Os Céus indemnizaram-me da ingratidão da outra bêbeda.


CAMILO CASTELO BRANCO,
in Eusébio Macário, 1879

2015/09/17


The Songs

Continuous, a medley of old pop numbers -
Our lives are like this. Three whistled bars
Are all it takes to catch us, defenceless
On a District Line platform, sullen to our jobs,
And the thing stays with us all day, still dapper,
        still Astaire,
Still fancy-free. We're dreaming while we work.

Be careful, keep afloat, the past is lapping your chin.
South Of The Border is sad boys in khaki
In 1939. And J'attendrai a transit camp,
Tents in the dirty sand. Don't go back to Sorrento.
Be brisk and face the day and set your feet
On the sunnny side always, the sunny side of the
       street.

MARTIN BELL, U.K., 1962


As Canções

Contínua, uma mistura de velhas actuações pop -
As nossas vidas são assim. Três cassetetes e um apito
Chegam para nos apanhar, sem defesa
Numa gare da District Line, taciturnos a caminho do emprego,
E a coisa fica connosco o dia inteiro, ainda elegante,
       ainda Astaire,
Ainda livre devaneio. Sonhamos a trabalhar.

Tem cuidado, mantém-te à tona, o passado dá-te pelo queixo.
A Sul Da Fronteira tem rapazes tristes de caqui
Em 1939. E J'attendrai tem um acampamento militar,
Tendas na areia suja. Não voltes a Sorrento.
Sê rápido e enfrenta o dia e caminha
Sempre pelo lado do sol, pelo lado da rua onde há
       sol.

2015/07/30

 
 
Particle Horizon

Why critique failure
on the thing’s visible part, the suggested part?

All parts want to fail into an abidance.
No emission appears 

except for one critical remark in the form of a naughty [drawing--
it defects,

renders the arm, the leg, and the smell,
explodes twice,

costs the arm.
I wonder if dehydration is like this:

A stud-finder detects a metal detector.
I think that dehydration is not like this.

The abstract in rage declares,
“My true love’s orange is orange!”
 
CHRISTINE KELLY, U.S.A., 2014


 
Horizonte de Partículas

Porquê criticar o fracasso
a partir da parte visível de uma coisa, a parte sugerida?
  
Todas as partes querem fracassar e obedecer.
Não aparece nada expresso
  
só uma nota crítica em forma de desenho brejeiro--
deserta,
  
traduz o braço, a perna e o cheiro,
explode duas vezes,
  
sacrifica o braço.
Não sei se desidratação é isto:
  
Um detector de metal oculto detecta o detector de [metais.
Acho que desidratação não é isto.
  
Em fúria, o abstracto declara:
“A laranja do meu verdadeiro amor é cor-de-laranja!”

 


2015/06/16


Everyone thought the world of her for her gentle ways. It was Gerty who turned off the gas at the main every night and it was Gerty who tacked up on the wall of that place where she never forgot every fortnight the chlorate of lime Mr. Tunney the grocer's Christmas almanac the picture of halcyon days where a young gentleman in the costume they used to wear then with a three cornered hat was offering a bunch of flowers to his ladylove with oldtime chivalry through her lattice window. You could see there was a story behind it. The colours were done something lovely. She was in a soft clinging white in a studied attitude and the gentleman was in chocolate and he looked a thorough aristocrat. She often looked at them dreamily when there for a certain purpose and felt her own arms that were white and soft just like hers with the sleeves back and thought about those times because she had found out in Walker's pronouncing dictionary that belonged to grandpapa Giltrap about the halcyon days what they meant.


JAMES JOYCE, Irlanda,
em Ulysses, 1922



Todos a tinham em grande conta pelos seus modos delicados. Era Gerty que desligava todas as noites o gás na conduta e era Gerty que pregava tachas na parede do local onde nunca esquecia de quinze em quinze dias a cal Mr.Tunney a mercearia o almanaque de Natal a imagem de dias idílicos em que um jovem com o fato que então se usava e chapéu de três bicos oferecia um ramo de flores à sua amada com cortesia antiga através da gelosia. Via-se que havia uma história por trás. As cores davam um efeito lindo. Ela vestia de branco suave cingido com uma atitude estudada e o jovem vestia de castanho chocolate e parecia um perfeito aristocrata. Olhava-os muitas vezes sonhadora quando ali ia para qualquer fim e sentia os seus próprios braços que eram brancos e macios tal como os dela com as mangas para trás e pensava nesses tempos porque descobrira no Walker dicionário com pronúncia que pertencia ao avô Giltrap o que eram dias idílicos o que significavam.

2015/06/10

 

Vão os anos descendo, e já do Estio
Há pouco que passar até o Outono;
A Fortuna me faz o engenho frio,
Do qual já não me jacto nem me abono;
Os desgostos me vão levando ao rio
Do negro esquecimento e eterno sono.
Mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainha
Das Musas, co que quero à nação minha.

LUÍS VAZ de CAMÕES, Portugal,
in "Os Lusíadas", Canto X, Estrofe 9

2015/05/18

 



que é
como quem diz: a multidão de palavras
todas elas esquerdas como se escreve,
e há o impulso de apertar a mão rara com a sua rosa
                                                              penta tatuada
- topas?
(tu que não topas nunca nada)
- vai-te lá embora
(tu que nem de dia nem de noite te vais embora)
- desampara-me a loja
(tu que não me amparas nunca
profunda outra carne humana)

HERBERTO HELDER, Portugal,
em Poemas Canhotos, 2015

2015/05/08

                          VALÉRIE ROUZEAU, Prix Apollinaire 2015    
                                 
Nous n'irons plus aux champignons
le brouillard a tout mangé les chèvres
blanches et nos paniers.
Nos n'irons pas non plus dans les
cités énormes qui sont des baleines
grises très bien organisées où nos coeurs
se perdraient.
Ni au cinéma ni au cirque, ni au café-concert
ni aux courses cyclistes.
Nous n'irons pas nous n'irons plus
pas plus que nous n'irons que nous ne
rirons pas que nous ne rirons plus que
nous ne rirons ronds.

VALÉRIE ROUZEAU, França,
in Patiences, 1994


Já não iremos aos cogumelos
o nevoeiro comeu tudo as cabras
brancas e os nossos cestos.
Também já não iremos às
cidades enormes que são baleias
cinzentas muito bem organizadas onde os nossos corações
se perderiam.
Nem ao cinema nem ao circo, nem ao café-concerto
nem às corridas de ciclistas.
Não iremos já não iremos
e também não
riremos já não riremos
nem a rir nos perderemos.

2015/05/06

                           WILLIAM CLIFF, Prix GONCOURT 2015

à mon retour d’Amérique tu vis
venir à mes tempes des mèches blanches
« William tu n’as guère changé » me dis-
tu « sauf ces mèches blanches sur tes tempes »
mon voyage au-delà de l’écumante
mer Atlantique à rechercher ta trace
fut-il tant éprouvant ? ça me tracasse
très peu cette blancheur de mes cheveux
qu’elle soit blanche ou noire ma tignasse
m’importe peu car c’est Toi que je veux

WILLIAM CLIFF, Bélgica,
in Autobiographie, 2009


no meu regresso da América, viste
aparecer nas minhas têmporas uns cabelos brancos
«William não mudaste nada» disseste
«para além desses cabelos brancos nas têmporas»
a minha viagem para lá da espuma
do Atlântico a procurar o teu rasto
foi assim tão tormentosa? incomoda-me
muito pouco o branco dos meus cabelos
que a minha cabeleira seja branca ou negra
importa-me pouco porque é a Ti que eu quero

2015/05/04



Venus her Myrtle, Phoebus has his bays;
Tea both excels, which she vouchsafes to praise.
The best of Queens, the best of herbs, we owe
To that bold nation which the way did show
To the fair region where the sun doth rise,
Whose rich productions we so justly prize.
The Muse's friend, tea does our fancy aid,
Regress those vapours which the head invade,
And keep the palace of the soul serene,
Fit on her birthday to salute the Queen.

EDMUND WALLER, U.K.,
no 25º aniversário de Catarina de Bragança, 25.11.1663



Vénus com a murta e Febo com o loureiro;
A ambos suplanta o chá, que ela se digna louvar.
A melhor Rainha, a melhor planta, devemo-las
À intrépida nação que abriu caminho
Até às belas regiões onde o sol nasce,
E cuja rica produção tão justamente apreciamos.
Amigo das musas, o chá anima a nossa fantasia,
Desfaz as névoas que a cabeça invadem
E mantém sereno o palácio da alma,
Pronto a saudar a Rainha no seu dia de anos.

2015/05/03


A caseira tinha um filho pequeno chamado Artaxerxes. O nome arrevesado punha-o doido, e tornou-se, além disso, muito mau. Todos se espantavam de ele se chamar assim; e tudo era culpa dum padrinho rico que sabia muito de História antiga.
- Xerxes - dizia a mãe -, vai apanhar erva para os coelhos. - Ou então gritava do fundo do campo: - Xerxes... Xerxes, anda cá nino...
Nino queria dizer menino. E perro queria dizer zangado. A mãe de Xerxes, a senhora Teodora, estava quase sempre perra. Também tinha duas filhas, bonitas como só visto. Os cabelos brilhavam ao sol, ainda que tivessem em cima uma boa camada de cinza da lareira. Emília achava-as vaidosas e namoradeiras, mas Lourença pensava que elas tinham mais razão para isso do que Marta. E Marta não largava o espelho todo o santo dia. Isto do santo dia foi coisa que Lourença nunca percebeu. Quando a mãe se aborrecia com uma criada, dizia: «Não faz nada todo o santo dia.» E tomava um ar mortificado.

AGUSTINA BESSA-LUÍS, Portugal,
em Dentes de Rato, 2012

2015/03/24

   
para "Os Passos em Volta" de HERBERTO HELDER, desenhos de ANA CARDOSO, 1997 (pormenor)    

O barulho do mar e do vento. A ideia da montanha impraticável. A terra arenosa por ali adiante. E a solidão. E, sobretudo, saber que já não pode haver qualquer espécie de medo. Então fecharei todas as portas da casa, a porta para fora e as portas dos quartos entre si. Ficarei no quarto sem soalho e deitar-me-ei no chão. Hei-de ouvir o mar e o vento, e hei-de saber que a montanha está atrás de mim, poderosa e só. Poderei ouvir também o sussurro da terra húmida debaixo do meu corpo. Encostarei a cara a esta terra profundíssima. Até que morrerei.

HERBERTO HELDER, Portugal,
em Os Passos em Volta, 1963

2015/03/17


I on the other hand believe that poetry and romance cannot be made by the most conscientious study of famous moments and of the thoughts and feelings of others, but only by looking into that little, infinite, faltering, eternal flame that we call ourselves. If a writer wishes to interest a certain people among whom he has grown up, or fancies he has a duty towards them, he may choose for the symbols of his art their legends, their history, their beliefs, their opinions, because he has a right to choose among things less than himself, but he cannot choose among the substances of art. So far, however, as this book is visionary it is Irish, for Ireland which is still predominantly Celtic has preserved with
some less excellent things a gift of vision, which has died out among more hurried and more suc-
cessful nations: no shining candelabra have prevented us from looking into the darkness, and when one looks into the darkness there is always something there.

W. B. YEATS, Irlanda,
na dedicatória de Rosa Alchemica a George Russell (A. E.), em Londres, 1896


Creio, porém, que poesia e romance não podem fazer-se nem com o mais consciencioso estudo de momentos famosos nem com sentimentos e ideias de outros, mas só olhando esse pequeno, infinito, vacilante e eterno brilho a que chamamos nós próprios. Se um escritor quer agradar a certas pessoas junto das quais cresceu, ou imagina que tem um dever para com elas, pode escolher como símbolos da sua arte as lendas, a história, as crenças e as opiniões que são delas, porque tem o direito de escolher coisas inferiores a si próprio - o que não pode é escolher a substância da arte. Mas este livro é irlandês por ser visionário, pois a Irlanda, que ainda é predominantemente celta, conservou a par de outras coisas o dom da visão, que morreu entre nações mais prósperas e apressadas: não houve candelabros resplandecentes que nos impedissem de olhar a escuridão e, quando olhamos a escuridão, está lá sempre alguma coisa.

2015/02/22

 
 


«I have tasted eggs, certainly,» said Alice, who was a very truthful child; «but little girls eat eggs quite as much as serpents do, you know.»
«I don't believe it,» said the Pigeon; «but if they do, why then they're a kind of serpent, that's all I can say.»
This was such a new idea to Alice, that she was quite silent for a minute or two, which gave the Pigeon the opportunity of adding, «You're looking for eggs, I know that well enough; and what does it matter to me whether you're a little girl or a serpent?»
«It matters a good deal to me,» said Alice hastily; «but I'm not looking for eggs, as it happens; and if I was, I shouldn't want yours: I don't like them raw.»

LEWIS CARROLL, U.K.
in Alice's Adventures in Wonderland, 1865


«É claro que comi ovos,» disse Alice, que era uma criança muito sincera, «mas sabes, as meninas comem ovos tal e qual como as serpentes.»      
«Não acredito,» disse a Pomba, «mas se comem, então só te digo que és uma espécie de serpente.»
Aquilo era uma ideia tão nova para Alice, que ela ficou calada um minuto ou dois, o que deu à Pomba oportunidade para acrescentar: «Andas à procura de ovos, isso eu sei; e que me interessa que sejas uma menina ou uma serpente?»
«Interessa-me a mim,» disse Alice exaltada, «mas não ando à procura de ovos, por sinal; e se andasse, não queria os teus; não gosto deles crus.»

2015/01/23


What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.

T.S. ELIOT, USA / UK,
in "The Burial of the Dead" (The Waste Land, 1922)


O que são as raízes que se agarram, que ramos nascem
Desta lixeira de pedras? Filho do homem,
Não consegues dizer, nem adivinhar, pois conheces só
Um monte de imagens desfeitas, onde o sol bate,
E a árvore morta não dá abrigo, o grilo não dá descanso,
E a pedra seca não soa a água. Só
Há sombra sob esta rocha encarnada,
(Anda para a sombra desta rocha encarnada),
E mostrar-te-ei uma coisa diferente quer
Da tua sombra que, de manhã, te segue a passos largos,
Quer da tua sombra que, ao anoitecer, se levanta para te alcançar;
Mostrar-te-ei o medo numa mão cheia de pó.

2015/01/03

 
Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom
.......
Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom
.......
Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté.

PAUL ELUARD, França,
in  Au rendez-vous allemand, 1945


Nos meus cadernos de estudante
Na minha carteira e nas árvores
Na areia e na neve
Escrevo o teu nome

Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome

Nas imagens douradas
Nas armas dos guerreiros
Na coroa dos reis
Escrevo o teu nome

Na selva e no deserto
Nos ninhos e nos arbustos
No eco da minha infância
Escrevo o teu nome

Nas noites das maravilhas
No pão branco dos dias
Na época dos enlaces
Escrevo o teu nome
.......
Em toda a carne que consente
Na fronte dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome
.......
E pelo poder duma palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Para te nomear
Liberdade.

2014/12/19

 

Mark this farther and remember. The end comes suddenly. Enter that antechamber of birth where the studious are assembled and note their faces. Nothing, as it seems, there of rash or violent. Quietude of custody rather, befitting their station in that house, the vigilant watch of shepherds and of angels about a crib in Bethlehem of Juda long ago. But as before the lightning the serried stormclouds, heavy with preponderant excess of moisture, in swollen masses turgidly distended, compass earth and sky in one vast slumber, impending above parched field and drowsy oxen and blighted growth of shrub and verdure till in an instant a flash rives their centres and with the reverberation of the thunder the cloudburst pours its torrent, so and not otherwise was the transformation, violent and instantaneous, upon the utterance of the Word.

JAMES JOYCE, Irlanda
in Ulysses, 1922


Nota mais isto e lembra-te. O fim vem de repente. Entra nessa antecâmara do nascimento onde os estudiosos se reúnem e repara nos rostos deles. Nada, como se afigura, de apressado ou violento. Antes a quietude protectora, própria do seu estatuto na casa, a guarda vigilante de pastores e de anjos a um berço em Belém de Judá há muito tempo. Mas como antes o relâmpago as compactas nuvens de tormenta, carregadas do excesso preponderante de humidade, em massas dilatadas, túrgidas, inchadas, abarcam céu e terra numa vasta sonolência, iminentes sobre o campo ressequido e os bois inertes e a massa arrasada de arbustos e verdura até que num instante um clarão lhes fende os centros e com a reverberação do trovão a carga de água solta a sua torrente, assim e não de outro modo se deu a transformação, súbita e violenta, ao ser pronunciada a Palavra.

2014/10/22

 
 

The priest's grey nimbus in a niche where he dressed discreetly. I will not sleep here tonight. Home also I cannot go.
A voice, sweettoned and sustained, called to him from the sea. Turning the curve he waved his hand. It called again. A sleek brown head, a seal's, far out on the water, round.
Usurper.

JAMES JOYCE, Irlanda, em Ulysses, 1922


A auréola cinzenta do padre num nicho onde ele se vestia discretamente. Não quero cá dormir esta noite. Para casa também não posso ir.
Uma voz, num tom mavioso e constante, chamava-o do mar. Ao fazer a curva acenou com a mão. De novo o chamava. Uma cabeça castanha e lustrosa, de foca, surpreendente na água, redonda.
Intrusa.

2014/10/15

 
 
love is more thicker than forget
more thinner than recall
more seldom than a wave is wet
more frequent than to fail

it is most mad and  moonly
and less it shall unbe
than all the sea which only
is deeper than the sea

love is less always than to win
less never than alive
less bigger than the least begin
less littler than forgive

it is most sane and sunny
and more it cannot die
than all the sky which only
is higher than the sky

E. E. CUMMINGS, U.S.A. 1939


o amor é mais mais denso que esquecer
mais mais fino que relembrar
mais raramente que uma onda se molhar
mais frequente que falhar

é doidíssimo e enluarado
e menos não será
que todo o mar que só
é mais fundo que o mar

o amor é sempre menos que ganhar
nunca menos que viver
menos enorme que o menor começar
menos ínfimo que perdoar

é sensatíssimo e ensolarado
ore frequent than to faile mais não morrerá
que todo o céu que só
é mais alto que o céudom than a wave is wetmore frequent than to fail it is most mad and moonlyand less it shall unbethan all the sea which on

 

2014/10/09


Depuis que j'écris ces pages, je me dis qu'il y a un moyen, justement, de lutter contre l'oubli. C'est d'aller dans certaines zones de Paris où vous n'êtes pas retourné depuis trente, quarante ans et d'y rester un après-midi, comme si vous faisiez le guet. Peut-être celles et ceux dont vous vous demandez ce qu'ils sont devenus surgiront au coin d'une rue, ou dans l'allée d'un parc, ou sortiront de l'un des immeubles qui bordent ces impasses désertes que l'on nomme "square" ou "villa". Ils vivent de leur vie secrète, et cela n'est possible pour eux que dans des endroits silencieux, loin du centre.

PATRICK MODIANO, França,
em L'Herbe des Nuits, 2012


Enquanto escrevo estas páginas, digo comigo que há justamente uma maneira de lutar contra o esquecimento. É ir a certas zonas de Paris onde não vamos há trinta ou quarenta anos e ficar lá uma tarde, como se fizéssemos a ronda. Pensamos no que será feito de algumas e de alguns e talvez eles surjam na esquina de uma rua, na alameda de um parque, ou saiam de um dos prédios que ladeiam esses becos desertos a que chamam "square" ou "villa". Vivem pela sua vida secreta e para eles isso não é possível senão nos lugares silenciosos, longe do centro.

2014/09/13


Enfin notre tour vint. Le juge était un homme bienveillant, à barbe grise. Il dit à Odile de ne pas être troublée; il nous parla de nos souvenirs communs, des liens du mariage; puis il nous engagea à essayer une dernière fois de nous réconcilier. Je dis: «Ce n'est malheureusement plus possible.» Odile regardait devant elle fixement. Elle avait l'air de souffrir. «Peut-être regrette-t-elle un peu,» pensai-je... «Peut-être ne l'aime-t-elle pas tant que je le crois... Peut-être est-elle déjà déçue?» Puis, comme nous nous taisions l'un et l'autre, j'entendis le juge qui disait: «Alors ayez l'obligeance de signer ce procès-verbal.» Nous sortîmes ensemble, Odile et moi. Je lui dis:
«Voulez-vous faire quelques pas?»
«Oui,» dit-elle. «Il fait si beau. Quel hiver exquis.»
Je lui rappelai qu'elle avait laissé chez nous beaucoup d'objets qui lui appartenaient; je lui demandeai si je devais les faire porter chez ses parents.
«Si vous voulez, mais, vous savez, gardez tout ce qui vous plaira... Moi, je n'ai besoin de rien; d'ailleurs je ne vivrai pas très longtemps, Dickie, vous serez vite débarassé de mon souvenir.»
«Pourquoi dites-vous cela, Odile? Vous êtes malade?»
«Oh! non, pas du tout! C'est une impression... Surtout remplacez-moi vite, si j'étais sûre que vous êtes heureux, cela m'aiderait beaucoup à l'être.»
«Je ne pourrai jamais être heureux sans vous.»
«Mais si, au contraire, vous verrez bientôt comme vous serez soulagé d'être délivrée dune femme insupportable... Je ne plaisante pas, vous savez, c'est vrai que je suis insupportable... Comme c'est joli, la Seine, en cette saison!»
Elle s'arrêta devant un étalage. Il y avait dans la vitrine des cartes marines; je savais qu'elle les aimait.
«Voulez-vous que je vous les achète?»
Elle me regarda avec beaucoup de tristesse et de tendresse.
«Comme vous êtes gentil,» dit-elle. «Oui, je veux bien; ce sera le dernier cadeau que je recevrai de vous.»
Nous entrâmes pour acheter les deux cartes; elle appela un taxi pour les emporter et enleva son gant pour me donner sa main à baiser. Elle me dit:
«Merci pour tout...»
Puis elle monta sans se retourner.


ANDRÉ MAUROIS, França, "Climats", 1928


Por fim chegou a nossa vez. O juiz era um homem afável, de barba grisalha. Disse a Odile que não se inquietasse; falou das nossas lembranças comuns, dos laços do matrimónio; depois convidou-nos a tentar pela última vez a reconciliação. Eu disse: «Infelizmente já não é possível.» Odile olhava em frente, fixamente. Tinha um ar pesaroso. «Talvez lamente um pouco,» pensei... «Talvez não o ame tanto como creio... Talvez já se tenha decepcionado...» Depois, como um e outro nos calássemos, ouvi o juiz dizer: «Então façam o obséquio de assinar este auto.» Saímos juntos, Odile e eu. Eu disse-lhe:
«Quer andar um bocado?»
«Sim,» disse ela. «Está tão bom tempo. Que Inverno delicioso.»
Lembrei-lhe que deixara em nossa casa muitos objectos que lhe pertenciam; perguntei-lhe se devia mandá-los entregar em casa dos pais.
«Se quiser, mas oiça, fique com tudo o que lhe agradar... Não preciso de nada; e de resto, não viverei muito tempo, Dickie, depressa se livrará da minha recordação.»
«Diz isso porquê, Odile? Está doente?»
«Não, nada! É uma impressão... O principal é que me substitua depressa, se eu tivesse a certeza de que é feliz, isso ajudar-me-ia muito.»
«Nunca poderei ser feliz sem si.»
«Pode, sim, e em breve sentirá alívio por se ver livre duma mulher insuportável... Não estou a brincar, sabe que é verdade, sou insuportável... Que lindo é o Sena nesta altura!»
Parou diante duma loja. Havia na montra cartas de marear e eu sabia que ela as apreciava.
«Quer que lhe compre alguma?»
Olhou-me com muita tristeza e com ternura.
«É tão atencioso,» disse. «Quero, sim; será a última prenda sua.»
Entrámos para comprar as duas cartas; ela chamou um táxi para as levar e tirou a luva para me dar a mão a beijar. Disse-me:
«Obrigada por tudo...»
Depois subiu sem olhar para trás.

2014/08/10


- Persecution, says he, all the history of the world is full of it. Perpetuating national hatred among nations.
- But do you know what a nation means? says John Wyse.
- Yes, says Bloom.
- What is it? says John Wyse.
- A nation? says Bloom. A nation is the same people living in the same place.
- By God, then, says Ned, laughing, if that's so I'm a nation for I'm living in the same place for the past five years.
So of course everyone had a laugh at Bloom and says he, trying to muck out of it:
- Or also living in different places.
- That covers my case, says Joe.
- What is your nation if I may ask, says the citizen.
- Ireland, says Bloom. I was born here. Ireland.

JAMES JOYCE, Irlanda,
em Ulysses, 1922


- Perseguição, diz ele, toda a história do mundo está cheia dela. Perpetuar o ódio nacionalista entre nações.
- Mas sabe o que significa uma nação? diz John Wyse.
- Sim, diz Bloom.
- O que é? diz John Wyse.
- Uma nação? diz Bloom. Uma nação são as mesmas pessoas a viver no mesmo lugar.
- Oh Deus, diz Ned a rir, então se é assim sou uma nação porque vivo no mesmo lugar há cinco anos.
E é claro, todos se riram de Bloom e diz ele, a tentar limpar-se:
- Ou também a viver em lugares diferentes.
- É o meu caso, diz Joe.
- Que nação é a sua, se não é indiscrição, diz o cidadão.
- Irlanda, diz Bloom. Nasci aqui. Irlanda.
 

2014/07/16





A quatre heures du matin, l’été
Le sommeil d’amour dure encore.
Sous les bocages s’évapore
L’odeur du soir fêté.

Là-bas, dans leur vaste chantier
Au soleil des Hespérides,
Déjà s’agitent ― en bras de chemise ―
Les Charpentiers.

Dans leurs Déserts de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
Où la ville
Peindra de faux cieux.

O, pour ces Ouvriers charmants
Sujets d’un roi de Babylone,
Vénus! quitte un instant les Amants
Dont l’âme est en couronne.

O Reine des Bergers,
Porte aux travailleurs l’eau-de-vie,
Que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer à midi.

ARTHUR RIMBAUD, França,
in “Une Saison en Enfer” (1873)



Às quatro da manhã, no Verão
O sono de amor dura ainda.
Sob os arbustos evapora-se
O odor da noite festejada.

Lá longe, no vasto estaleiro
Ao sol das Hespérides,
Já se agitam ― em mangas de camisa ―
Os Carpinteiros.

Nos Desertos de espuma, tranquilos,
Preparam os lambris preciosos
Onde a cidade
Pintará falsos céus.

Oh, pelos Operários encantadores
Súbditos dum rei da Babilónia,
Vénus! deixa um instante os Amantes
Cuja alma se engalanou.

Ó Rainha dos Pastores,
Leva aos trabalhadores a aguardente,
Que as suas forças se aquietem
Enquanto esperam o banho no mar ao meio-dia.

2014/07/12

 

Love loves to love love. Nurse loves the new chemist. Constable 14A loves Mary Kelly. Gerty MacDowell loves the boy that has the bicycle. M. B. loves a fair gentleman. Li Chi Han lovey up kissy Cha Pu Chow. Jumbo, the elephant, loves Alice, the elephant. Old Mr. Verschoyle with the ear trumpet loves old Mrs. Verschoyle with the turnedin eye. The man in the brown macintosh  loves a lady who is dead. His Majesty the King loves Her Majesty the Queen. Mrs. Norman W. Tupper loves officer Taylor. You love a certain person. And this person loves that other person because everybody loves somebody but God loves everybody.

JAMES JOYCE, Irlanda,
em Ulysses, 1922



O amor ama amar o amor. A enfermeira ama o novo farmacêutico. O agente 14A ama Mary Kelly. Gerty MacDowell ama o rapaz que tem a bicicleta. M. B. ama um belo cavalheiro. Li Chi Han ama xim dá jinhos a Cha Pu Chow. Jumbo, o elefante, ama Alice, a elefanta. O velho Mr. Verschoyle da trompa acústica ama a velha Mrs. Verschoyle do olho torto. O homem da gabardina castanha ama uma senhora que morreu.  Sua Majestade o Rei ama Sua Majestade a Rainha. Mrs. Norman W. Tupper ama o guarda Taylor. Tu amas uma certa pessoa. E essa pessoa ama aquela outra pessoa porque toda a gente ama alguém e Deus ama toda a gente.

2014/06/29


The scenes depicted on the emunctory field, showing our ancient duns and raths and cromlechs and grianauns and seats of learning and maledictive stones, are as wonderfully beautiful and the pigments as delicate as when the Sligo illuminators gave free reign to their artistic fantasy long long ago in the time of the Barmecides. Glendalough, the lovely lakes of Killarney, the ruins of Clonmacnois,  Cong Abbey, Glen Inagh and the Twelve Pins, Ireland's Eye, the Green Hills of Tallaght, Croagh Patrick, the brewery of Messrs Arthur Guinness, Son and Company (Limited), Lough Neagh's banks, the vale of Ovoca, Isolde's tower, the Mapas obelisk, Sir Patrick Dun's hospital, Cape Clear, the glen of Aherlow, Lynch's castle, the Scotch house, Rathdown Union Workhouse at Loughlinstown, Tullamore jail, Castleconnel rapids, Kilballymacshonakill, the cross at Monasterboice, Jury's Hotel, S. Patrick's Purgatory, the Salmon Leap, Maynooth college refectory, Curley's hole, the three birthplaces of the first duke of Wellington, the rock of Cashel, the bog of Allen, the Henry Street Warehouse, Fingal's Cave - all these moving scenes are still there for us today rendered more beautiful still by the waters of sorrow which have passed over them and by the rich incrustations of time.
- Shove us over the drink, says I. Which is which?
- That's mine, says Joe, as the devil said to the dead policeman.
- And I belong to a race too, says Bloom, that is hated and persecuted. Also now. This very moment. This very instant.

JAMES JOYCE, Irlanda,
em Ulysses, 1922



As cenas representadas no lenço de assoar, que mostram as nossas antigas fortificações e fortes em colinas e cromeleques e mosteiros e solários em castelos medievais e pedras empilhadas a assinalar desgraças, são tão belas e maravilhosas e com pigmentos tão delicados como quando os autores de iluminuras de Sligo davam largas à sua fantasia artística há muito muito tempo na época dos nobres persas. Glendalough, os belos lagos de Killarney, as ruínas de Clonmacnois,  a abadia de Cong, Glen Inagh e os Doze Cumes, a ilha de Ireland's Eye, as Colinas Verdes de Tallaght, a montanha de Saint Patrick, a fábrica de cerveja dos Srs. Arthur Guinness, Filho e Companhia (Limitada), as margens do Lago Neagh, o vale de Ovoca, a torre de Isolda, o obelisco de Mapas, o hospital de Sir Patrick Dun, o Cabo Clear, o vale de Aherlow, o castelo de Lynch, o Scotch House pub, o Asilo de Rathdown Union em Loughlinstown, a prisão de Tullamore, as cascatas de Castleconnel, Kilballymacshonakill, a cruz em Monasterboice, a Faculdade de Green, a caverna onde Saint Patrick viu o Purgatório, a queda de água em Leixlip, o refeitório da Faculdade de Maynooth, a piscina funda de Curley, os três locais de nascimento do primeiro duque de Wellington, o rochedo de Cashel, o pântano de Allen, o armazém em Henry Street, a Gruta de Fingal - estas cenas comoventes ainda hoje ali estão todas para nós vermos cobertas de maior beleza pelas águas da tristeza que passaram sobre elas e pelas ricas incrustações do tempo.
- Dá-nos lá de beber, digo eu. Qual é de quem?
- Essa é minha, diz Joe, como disse o diabo ao polícia morto.
- E também pertenço a uma raça, diz Bloom, que é odiada e perseguida. Também agora. Neste preciso momento. Neste mesmo instante.

2014/06/10


Everyone thought the world of her for her gentle ways. It was Gerty who turned off the gas at the main every night and it was Gerty who tacked up on the wall of that place where she never forgot every fortnight the chlorate of lime Mr. Tunney the grocer's Christmas almanac the picture of halcyon days where a young gentleman in the costume they used to wear then with a three cornered hat was offering a bunch of flowers to his ladylove with oldtime chivalry through her lattice window. You could see there was a story behind it. The colours were done something lovely. She was in a soft clinging white in a studied attitude and the gentleman was in chocolate and he looked a thorough aristocrat. She often looked at them dreamily when there for a certain purpose and felt her own arms that were white and soft just like hers with the sleeves back and thought about those times because she had found out in Walker's pronouncing dictionary that belonged to grandpapa Giltrap about the halcyon days what they meant.


JAMES JOYCE, Irlanda,
em Ulysses, 1922



Todos a tinham em grande conta pelos seus modos delicados. Era Gerty que desligava todas as noites o gás na conduta e era Gerty que pregava tachas na parede do local onde nunca esquecia de quinze em quinze dias a cal Mr.Tunney a mercearia o almanaque de Natal a imagem de dias idílicos em que um jovem com o fato que então se usava e chapéu de três bicos oferecia um ramo de flores à sua amada com cortesia antiga através da gelosia. Via-se que havia uma história por trás. As cores davam um efeito lindo. Ela vestia de branco suave cingido com uma atitude estudada e o jovem vestia de castanho chocolate e parecia um perfeito aristocrata. Olhava-os muitas vezes sonhadora quando ali ia para qualquer fim e sentia os seus próprios braços que eram brancos e macios tal como os dela com as mangas para trás e pensava nesses tempos porque descobrira no Walker dicionário com pronúncia que pertencia ao avô Giltrap o que eram dias idílicos o que significavam.

2014/05/22


Know me come eat with me. Royal sturgeon. High sheriff, Coffey, the butcher, right to venisons of the forest from his ex. Send him back the half of a cow. Spread I saw down in the Master of the Rolls' kitchen area. Whitehatted chef like a rabi. Combustible duck. Curly cabbage à la duchesse de Parme. Just as well to write it on the bill of fare so you can know what you've eaten too many drugs spoil the broth. I know it myself. Dosing it with Edwards' desiccated soup. Geese stuffed silly for them. Lobsters boiled alive. Do ptake some ptarmigan. Wouldn't mind being a waiter in a swell hotel. Tips, evening dress, halfnaked ladies. May I tempt you to a little more filleted lemon sole, miss Dubedat? Yes, do bedad. And she did bedad. Huguenot name I expect that. A miss Dubedat lived in Killiney I remember. Du, de la, French.


JAMES JOYCE, Irlanda,
em Ulysses, 1922



Conhece-me anda comer comigo. Esturjão real. Xerife-mor, Coffey, o talhante com direito aos veados da floresta da ex-mulher. Devolver-lhe a metade duma vaca. Folha de jornal que vi lá em baixo, na zona da cozinha do Patrão do Rolls. Chef de chapéu branco qual rabi. Pato combustível. Couve frisada à la duchesse de Parme. É bom escreverem na ementa para podermos saber o que comemos drogas a mais estragam o caldo. Sei por mim. Tomar pequenas doses com a sopa seca do Edward. Para eles, gansos empanturrados até cair. Lagostas cozidas vivas. Ptoma o ptarmesão. Não me importava de ser criado de mesa num hotel chique. Gorjetas, traje de noite, senhoras seminuas. Posso tentá-la com mais um filetezinho de linguado com limão, miss Dubedat? Sim, dá bedade. E bedadeu mesmo. Nome huguenote, suponho. Lembro-me que vivia em Killiney uma miss Dubedat. Du, de la, francesa.

2014/05/10

                                          PIERRE-AUGUSTE RENOIR, "Les Baigneuses"
Beauty: it curves: curves are beauty. Shapely goddesses, Venus, Juno: curves the world admires. Can see them library museum standing in the round hall, naked goddesses. Aids to digestion. They don't care what man looks. All to see. Never speaking, I mean to say to fellows like Flynn. Suppose she did Pygmalion and Galatea what would she say first? Mortal! Put you in your proper place. Quaffing nectar at mess with gods, golden dishes, all ambrosial. Not like a tanner lunch we have, boiled mutton, carrots and turnips, bottle of Allsop. Nectar, imagine it drinking electricity: god's food. Lovely forms of woman sculpted Junonian. Immortal lovely. And we stuffing food in one hole and out behind: food, chyle, blood, dung, earth, food: have to feed it like stoking an engine. They have no. Never looked. I'll look today. Keeper won't see. Bend down let something fall see if she.

JAMES JOYCE, Irlanda
em Ulysses, 1922



Beleza: é curva: curvas são beleza. Deusas torneadas, Vénus, Juno: curvas que o mundo admira. Posso vê-las museu da biblioteca de pé no átrio redondo, deusas nuas. Ajuda a digestão. Não ligam ao aspecto do homem. Tudo para ver. Sem nunca falar, penso dizer a tipos como Flynn. Imagina que ela fazia Pigmalião e Galateia o que diria logo? Mortal! Põe-te no teu lugar. A emborcar néctar numa barafunda com deuses, pratos dourados, tudo de ambrósia. Não como o almoço de tanoeiro que temos, carneiro cozido, nabos e cenouras, garrafa de Allsop. Néctar, imagina-o a beber electricidade: alimento dos deuses. Formas encantadoras de mulher esculpidas por Juno. Encantadoras imortais. E nós a enfiar comida por um buraco e ela a sair por trás: alimento, muco, sangue, estrume, terra, alimento: tem de se alimentar como quem abastece um motor. Não têm. Nunca olhei. Vou olhar hoje. A vigilante não vai ver. Curvo-me deixo cair qualquer coisa a ver se ela.

2014/02/27



Judge Taylor had one interesting habit. He permitted smoking in his courtroom but did not himself indulge: sometimes, if one was lucky, one had the privilege of watching him put a long dry cigar into his mouth and munch it slowly up. Bit by bit the dead cigar would disappear, to reappear some hours later as a flat slick mess, its essence extracted and mingling with Judge Taylor’s digestive juices. I once asked Atticus how Mrs. Taylor stood to kiss him, but Atticus said they didn’t kiss much.

HARPER LEE, E.U.A., in To Kill a Mockingbird, 1960


O juiz Taylor tinha um hábito interessante. Permitia que fumassem na sua sala de audiências mas consigo próprio não transigia: por vezes, com sorte, tínhamos o privilégio de o ver meter na boca um charuto comprido e frio, e mastigá-lo ruidosa e lentamente. Pedaço a pedaço o charuto desaparecia todo, para reaparecer daí a horas como uma porcaria achatada e pastosa, cuja essência fora extraída e misturada com os sucos digestivos do juiz Taylor. Perguntei uma vez a Atticus como conseguia Mrs. Taylor beijá-lo, mas Atticus disse que eles não se beijavam muito.

2014/01/28



So they that are to Love enclin'd,
Sway'd by Chance, not choyce or art,
To the first that's faire or kind,
Make a present of their heart;
'Tis not she that first we love,
But whom dying we approve.
 
To Man that was i'th'Evening made,
Stars gave the first delight,
Admiring in the gloomy shade
Those little drops of light.

EDMUND WALLER, U.K.,
in An Apologie for Having Loved Before (c.1660)


Assim os que ao Amor se inclinam,
Levados por Acaso, não por escolha ou arte, `
À primeira que for bonita ou delicada,
Dão de prenda o coração;
Mas não é ela a que primeiro amamos,
Antes aquela que ao morrer abençoamos.

Ao Homem que ao Anoitecer foi feito,
Deram as estrelas o primeiro deleite,
De admirar na sombra obscura
Essas gotículas de luz.

2014/01/06


POÉSIE

De son amour noircir les murs,
C'est très difficile à la ville;
Souvent les murs étant de verre
Aux patineurs je porte envie

Mais me contente de mes vers;
Seuls les voleurs sont assez riches
Pour inscrire sur la vitrine
Le prénom de leur bien-aimée.

Que ton diamant, Poésie,
Une de ces vitrines raye,
Des bavardes boucles d'oreilles,
J'achète ou vole le silence,

Pour en orner de roses lobes.
Patineur, la glace est rompue
(En belle anglaise copiée,
Ma poésie, avec ses pieds).


RAYMOND RADIGUET, França,
in Les Joues en Feu, 1920



POESIA

Obscurecer as paredes com o seu amor
É muito difícil à cidade;
Sendo muitas vezes as paredes de vidro
É os patinadores que eu cobiço

Mas contento-me com os meus versos;
Só os ladrões são bastante ricos
Para gravarem na montra
O nome da bem-amada.

Que o teu diamante, Poesia,
Risque uma dessas montras,
Eu a brincos tagarelas
Ou compro ou roubo o silêncio,

Para com eles adornar lóbulos róseos.
Patinador, o gelo quebrou-se
(Qual bela inglesa plagiada,
A minha poesia, com os pés).

2013/12/21


Não recorras ao que já sabes do Natal,
mas coloca-te à espera
daquilo que de repente em teu coração
se pode revelar
Não  reduzas o Natal ao enredo dos símbolos
tornando-o um fragmento trémulo sem lugar
no concreto da vida

Não repitas apenas as frases que te sentes obrigado a dizer
como se o Natal devesse preencher um vazio
em vez de o desocultar

Não confundas os embrulhos com o dom
nem a acumulação de coisas com a possibilidade da festa:
o que recebes de graça
só gratuitamente poderás partilhar

Cuida do exterior sabendo que ele é verdadeiro
quando movido por uma alegria que vem de dentro

Uma só coisa merece ser buscada e celebrada, uma só:
o despertar de  uma Presença no fundo da alma

Por isso o Natal que é teu não te pertence
Só a outro o poderás pedir.


JOSÉ TOLENTINO DE MENDONÇA, Portugal, 2013

2013/11/18