2020/09/17


 I don't regret for a single moment having lived for pleasure. I did it to the full, as one should do everything that one does. There was no pleasure I did not experience. I threw the pearl of my soul into a cup of wine. I went down the primrose path to the sound of flutes. I lived on honeycomb. But to have continued the same life would have been wrong because it would have been limiting. I had to pass on. The other half of the garden had its secrets for me also. Of course all this is foreshadowed and prefigured in my books. Some of it is in The Happy Prince, some of it in The Young King, notably in the passage where the bishop says to the kneeling boy, 'Is not He who made misery wiser than thou art?' a phrase which when I wrote it seemed to me little more than a phrase; a great deal of it is hidden away in the note of doom that like a purple thread runs through the texture of Dorian Gray; in The Critic as Artist it is set forth in many colours; in The Soul of Man it is written down, and in letters too easy to read; it is one of the refrains whose recurring motifs make Salome so like a piece of music and bind it together as a ballad; in the prose poem of the man who from the bronze image of the 'Pleasure that liveth for a moment' has to make the image of the 'Sorrow that abideth for ever' it is incarnate. It could not have been otherwise. At every single moment of one's life one is what one is going to be no less than what one has been. Art is a symbol, because man is a symbol. 

OSCAR WILDE, UK
in De Profundis, 1897


Nem por um instante lamento ter vivido para o prazer. Fi-lo plenamente, como se deve fazer tudo o que se faz. Não houve prazer que não experimentasse. Lancei a pérola da minha alma num copo de vinho. Desci o carreiro de malmequeres ao som de flautas. Vivi no jardim das delícias. Mas ter continuado essa vida seria errado, porque me limitaria. Tinha de avançar. A outra metade do jardim também tinha para mim os seus segredos. É claro que tudo isto está anunciado e antecipado nos meus livros. Uma parte n' O Príncipe Feliz, outra n' O Jovem Rei, em especial na passagem em que o bispo diz ao rapaz ajoelhado 'Não foi Ele que fez a infelicidade mais sábia do que tu?', frase que, quando a escrevi, me pareceu pouco mais do que uma frase; e grande parte está escondida na nota de condenação que, como fio de púrpura, percorre o tecido de Dorian Gray; em O Crítico enquanto Artista apresenta-se com muitas cores; em A Alma Humana vem bem explicado e em caracteres facílimos de ler; é um dos refrãos cujos motivos recorrentes fazem de Salomé uma peça musical e lhe dão a forma de balada; no poema em prosa do homem que da imagem em bronze do 'Prazer que durou um momento' teve de fazer a imagem da 'Mágoa que durou para sempre', corporizou-se. Não podia ser de outro modo. Em cada momento da nossa vida somos tanto o que seremos como aquilo que fomos. A arte é um símbolo, porque o homem é um símbolo.

2020/08/01

    Everyman's Library, capa com retrato de JANE AUSTEN          Ozias Humphrey, c. 1792 (óleo sobre tela, pormenor)


'Two steps, Jane, take care of the two steps. Oh! no, there is but one. Well, I was persuaded there were two. How very odd! I was convinced there were two, and there is but one. I never saw anything equal to the comfort and style - Candles every where. - I was telling you of your grandmamma, Jane, - There was a little disappointment. - The baked apples and biscuits, excellent in their way, you know; but there was a delicate fricassee of sweetbread and some asparagus brought in at first, and good Mr. Woodhouse, not thinking the asparagus quite boiled enough, sent it all out again. Now there is nothing grandmamma loves better than sweetbread and asparagus - so she was rather disappointed, but we agreed we would not speak of it to any body, for fear of its getting round to dear Miss Woodhouse, who would be so very much concerned! - Well, this is brilliant! I am all amazement! could not have supposed any thing! - Such elegance and profusion! - I have seen nothing like it since - Well, where shall we sit? where shall we sit? Any where, so that Jane is not in a draught. Where I sit is of no consequence. Oh! do you recommend this side? - Well, I am sure, Mr. Churchill - only it seems too good - but just as you please. What you direct in this house cannot be wrong. Dear Jane, how shall we ever recollect half the dishes for grandmamma? Soup too! Bless me! I should not be helped so soon, but it smells most excellent, and I cannot help beginning.'

JANE AUSTEN, UK,
Emma, 1815


Dois degraus, Jane, cuidado com os dois degraus. Ah, não, é só um. Estava convencida de que eram dois. Que estranho! Estava convencida de que eram dois, e é só um. Nunca vi nada igual em conforto e em estilo - Velas por todo o lado. - Estava a contar da sua avó, Jane, - houve alguma decepção - Biscoitos e maçãs assadas, primorosos, já sabe; mas primeiro trouxeram espargos e um delicado fricassé de fígados, e Mr. Woodhouse, coitado, pensando que os espargos não estavam no ponto, mandou-os para trás. Ora não há nada que a avó adore mais do que fígados e espargos - por isso ficou muito decepcionada, mas decidimos não dizer nada a ninguém, com medo de que chegasse aos ouvidos da querida Miss Woodhouse e ela ficasse preocupada! - Está resplandecente! Estou maravilhada! Não supunha nada! Que elegância e variedade! - Não via nada assim desde - Bem, onde nos sentamos? onde nos sentamos? Em qualquer sítio, desde que a Jane não apanhe correntes de ar. Eu fico em qualquer lado, não importa. Ah! recomenda este lugar? Claro, Mr. Churchill - e é dos melhores - como lhe aprouver. Nesta casa as suas instruções são ordens. Querida Jane, como havemos de nos lembrar de metade dos pratos para dizer à avó? Também há sopa? Que beleza! Não devia servir-me tão cedo, mas cheira divinalmente, vou ter de começar.              

2020/06/28



Do we create art in order to defeat, or at least defy, death? To transcend it, to put it in its place? You may take my body, you may take all the squidgy stuff inside my skull where lurks whatever lucidity and imagination I possess, but you cannot take away what I have done with them. Is that our subtext and our motivation? Most probably - though sub specie aeternitatis (or even the view of a millenium or two) it's pretty daft. Those proud lines of Gautier's I was once so attached to - everything passes, except art in its robustness; kings die, but sovereign poetry lasts longer than bronze - now read as adolescent consolation. Tastes change; truths become clichés; whole art forms disappear. Even the greatest art's triumph over death is risibly temporary. A novelist might hope for another generation of readers - two or three if lucky - which may feel like a scorning of death; but it's really just scratching  the wall of the condemned cell. We do it to say: I was here too.

JULIAN BARNES, in Nothing to be Frightened of,
UK 2008


Criamos a arte para derrotar ou, pelo menos, desafiar a morte? Para a transcender, para a pôr no lugar dela? Podes levar o meu corpo, podes levar toda a matéria viscosa que está dentro do meu crânio, onde se escondem a lucidez e a imaginação que eu possa ter, mas não podes levar o que fiz com elas. Esse é o nosso não dito e a nossa motivação? Muito provavelmente, embora sub specie aeternitatis (ou mesmo na perspectiva de um milénio ou dois) seja uma patetice. Os versos orgulhosos de Gautier, de que tanto gostei - tudo passa, excepto a arte e a sua robustez; morrem os reis mas, soberana, a poesia fica, mais forte do que o bronze - parecem hoje uma consolação adolescente. Os gostos mudam; as verdades tornam-se lugares-comuns; há formas de arte que desaparecem por inteiro. Até o triunfo da arte sobre a morte é risível, temporário. Um romancista pode esperar mais uma geração de leitores - com sorte, duas ou três - e podemos sentir aí o desdém pela morte; mas, na realidade, não passa de um arranhão na parede da cela do condenado. Fazemo-lo para dizer: eu também estive aqui.

2019/08/12


Comme pour la distraire, il reproduisait le tic-tac du tournebroche, l'appel aigu d'un vendeur de poisson, la scie du menuisier qui logeait en face; et, aux coups de la sonnette, imitait Mme Aubain, - «Félicité! la porte! la porte!»
Ils avaient des dialogues, lui, debitant à satiété les phrases de son répertoire, et elle, y répondant par des mots sans plus de suite, mais où son coeur s'épanchait. Loulou, dans son isolement, était presque un fils, un amoureux. Il escaladait ses doigts, mordillait ses lèvres, se cramponnait à son fichu; et, comme elle penchait son front en branlant la tête à la manière des nourrices, les grandes ailes du bonnet et les ailes de l'oiseau frémissaient ensemble.
Quand des nuages s'amoncelaient et que le tonnerre grondait, il poussait des cris, se rappelant peut-être les ondées de ses forêts natales.

GUSTAVE FLAUBERT, França, 
in Un Coeur Simple, 1877 

Como que para a distrair, ele reproduzia a cadência da manivela no espeto, o pregão estridente do peixeiro, a serra do marceneiro que morava em frente; e ao toque da campainha, imitava Madame Aubain  - «Félicité! a porta! a porta!»
Tinham diálogos em que ele debitava sem cessar as frases do seu repertório e ela lhe respondia com palavras algo inconsequentes, mas onde o coração se derramava. Lulu, no seu isolamento, era quase um filho, um enamorado. Trepava-lhe pelos dedos, mordiscava-lhe os lábios, agarrava-se-lhe ao carrapito; e se ela inclinava a fronte e meneava a cabeça como as amas de leite, as grandes abas da touca e as asas do papagaio estremeciam juntas.
Quando as nuvens se acumulavam e o trovão rugia, ele dava gritos, quem sabe se ao relembrar o marulhar das florestas natais.

2019/07/14


São hoje seis dias corridos do mês de Julho de 1866.
E eu tenho frio.
Estou na aldeia. A chuva estraleja nas vidraças e o vento assobia nos vigamentos. Os cabeços dos montes escondem-se nas névoas que vêm descendo, como em Janeiro, e se desfazem em aguaceiros glaciais. Agora deponho a pena para espirrar. Anuncia-se-me a décima quarta bronquite desta quadra de zéfiros, rouxinóis e flores.
Aqui estou, pois, numa terra onde não há estradas, nem gente, nem Verão. Moscas há mais do que as da praga. Eis-me constituído um faraó desta canalha.

CAMILO CASTELO BRANCO, Portugal
"Cousas Leves e Pesadas", 1866

2019/06/09

It is to be remarked that the process of analysing a language is facilitated if it is possible to use for the classificaion of its forms an artificial system of symbols whose structure is known. The best known example of such symbolism is the so-called system of logistic which was employed by Russell and Whitehead in their Principia Mathematica. But it is not necessary that the language in which analysis is carried out should be different from the language analysed. If it were, we should be obliged to suppose, as Russell once suggested, "that every language has a structure concerning which, in the language, nothing can be said, but that there may be another language dealing with the structure of the first language, and having itself a new structure, and that to this hierarchy of languages there may be no limit." This was written presumably in the belief that an attempt to refer to the structure of a language in the language itself would lead to the occurrence of logical paradoxes. But Carnap, by actually carrying out.such an analysis, has subsequently shown that a language can without self-contradiction be used in the analysis of itself.

ALFRED JULES AYER, UK
in Language, Truth and Logic, 1936

É de notar que o processo de analisar uma língua é facilitado se, para classificar as suas formas, pudermos usar um sistema artificial de símbolos com uma estrutura conhecida. O melhor exemplo desse simbolismo é o chamado sistema logístico, que foi aplicado por Russell e Whitehead nos Principia Mathematica. Mas não é necessário que a língua que leva a cabo a análise seja diferente da língua analisada. Se o fosse, seríamos obrigados a supor, como Russell chegou a sugerir, "que todas as línguas têm uma estrutura em relação à qual, dentro da língua, nada pode ser dito, mas pode haver outra língua que se ocupe da estrutura da primeira e que tenha ela própria uma estrutura nova e, para essa hierarquia das línguas, não pode haver limite." Supostamente, isto foi escrito acreditando que a tentativa de nos referirmos à estrutura de uma língua dentro da própria língua levaria à ocorrência de paradoxos lógicos. Mas, ao executar essa análise, Carnap mostrou que uma língua pode, sem se contradizer, ser usada na análise de si própria.

2019/04/04

        
       My mother was behind the wheel in her pink dressing gown over her pink nightdress. I didn´t check to see if she was driving in bedroom slippers. She was halfway down a cigarette, and before putting the car into gear, flicked the glowing stub out on to the Macleod's driveway.
         I got in, and as we drove my mood switched from pert indifference to furious humiliation. An English silence – one in which all the unspoken words are perfectly understood by both parties – prevailed. I got into my bed and wept. The matter was never referred to again.

JULIAN BARNES, UK
in The Only Story, 2018
                                                                   
       A minha mãe estava ao volante, com o roupão cor-de-rosa por cima da camisa de noite cor-de-rosa. Não olhei para ver se conduzia com os chinelos de quarto. Já fumara meio cigarro e, antes de meter a mudança, atirou a beata acesa para a entrada dos Macleod. 
       Entrei e, pelo caminho, a minha disposição passou de indiferença atrevida a humilhação raivosa. Instalou-se um silêncio inglês – aquele em que todas as palavras não ditas são perfeitamente entendidas por ambas as partes. Fui para a minha cama e chorei. O assunto nunca mais foi mencionado.


2019/02/02

                                                             Ana Cardoso, Turnips, (pormenor) 2013  

Know me come eat with me. Royal sturgeon. High sheriff, Coffey, the butcher, right to venisons of the forest from his ex. Send him back the half of a cow. Spread I saw down in the Master of the Rolls' kitchen area. Whitehatted chef like a rabi. Combustible duck. Curly cabbage à la duchesse de Parme. Just as well to write it on the bill of fare so you can know what you've eaten too many drugs spoil the broth. I know it myself. Dosing it with Edwards' desiccated soup. Geese stuffed silly for them. Lobsters boiled alive. Do ptake some ptarmigan. Wouldn't mind being a waiter in a swell hotel. Tips, evening dress, halfnaked ladies. May I tempt you to a little more filleted lemon sole, miss Dubedat? Yes, do bedad. And she did bedad. Huguenot name I expect that. A miss Dubedat lived in Killiney I remember. Du, de la, French.

JAMES JOYCE, Irlanda,
in Ulysses, 1922

Conhece-me anda comer comigo. Esturjão real. Xerife-mor, Coffey, o talhante, com direito aos veados da floresta da ex-mulher. Devolver-lhe a metade duma vaca. Folha de jornal que vi lá em baixo, na zona da cozinha do Patrão do Rolls. Chef de chapéu branco qual rabi. Pato combustível. Couve frisada à la duchesse de Parme. É bom escreverem na ementa para podermos saber o que comemos drogas a mais estragam o caldo. Sei por mim. A tomar pequenas doses com a sopa ressequida do Edward. Para eles gansos empanturrados até cair. Lagostas cozidas vivas. Ptoma o ptarmesão. Não me importava de ser criado de mesa num hotel chique. Gorjetas, traje de noite, senhoras seminuas. Posso tentá-la com mais um filetezinho de linguado com limão, miss Dubedat? Sim, dá bedade. E bedadeu mesmo. Nome huguenote, suponho. Lembro-me que vivia em Killiney uma miss Dubedat. Du, de la, francesa.

2018/09/06



Although he was yet to start his third year at university, Keith (rather unattractively, some may feel) had written to the Literary Supplement earlier in the summer and asked to be given a book to review - on trial. As a consequence, he had before him a heap of grey fluff and a loaf-sized monograph called Antinomianism in D. H. Lawrence by Marvin M. Meadowbrook (Rhode Island University Press). The stipulated length was a thousand words and the deadline was four days away. Lily said:
   'Ring them up and tell them it's impossible.'
   'I can't do that. You've got to try. You've got to at least try.'
   'A mere student,' said Gloria, 'and already you're trolling for work. Oh, very ambitious.'
   'That's what we're all meant to be, isn't it? said Scheherazade, as she stood and then entered the long corridor.
   Keith looked up. Scheherazade entered the long corridor, which was aflame with sunset.

MARTIN AMIS, U.K., in The Pregnant Widow, 2010

Apesar de ainda nem ter iniciado o terceiro ano da universidade, Keith (de uma maneira que alguns acharão pouco interessante) escrevera ao Literary Supplement no início do Verão e pedira que lhe dessem um livro para comentar - à experiência. Daí resultara que tinha diante dele um monte de folhas cinzentas e uma monografia do tamanho dum pão de quilo, chamada Antinomianism in D. H. Lawrence, de Marvin M. Meadowbrook (Rhode Island University Press). Mil palavras era o tamanho estipulado e o prazo de entrega era daí a quatro dias. Lily disse:
   - Telefona-lhes e diz que é impossível.
   - Não posso fazer isso. Uma pessoa tem de tentar. Tem ao menos de tentar.
   - Um simples estudante,' disse Gloria, 'e já andas a desencantar trabalho. Hum, muito ambicioso.'
   - É o que todos temos de fazer, não é?' disse Scheherazade, que estava de pé e seguiu depois pelo longo corredor.
   Keith ergueu os olhos. Scheherazade seguiu pelo longo corredor que o crepúsculo incendiara.
 



2017/07/08


Drawing the curtains back and opening windows
Every morning now, she feels her years
Grow less and less. Time puts no burden on
Her now she does not need to measure it.
It is acceptance she arranges 
And her own life she places in the vase.

ELIZABETH JENNINGS, U.K.
in Old Woman, 1958

Agora, ao afastar cortinas e ao abrir as janelas 
De manhã, ela sente que os anos
Encolhem cada vez mais. Agora o tempo não
Lhe pesa não precisa de o medir.
É aceitação o que dispõe
E a própria vida o que põe na jarra.

2017/03/21


Following
the solitude of distances,
a coarsely wound thread
of sidewalk stretched among blocks

Regular as playthings.

The nature of your work
leaves full days discarded
at the entrance to the train.

ERIN J. WATSON, in 'No Experiences', 2012

(each poem contains one @Horse_ebooks tweet. You can find them linked from noexperiences.com)


Seguindo
a solidão das distâncias,
a travessia do passeio agreste e tortuoso
que se alonga entre quarteirões

Alinhados como brinquedos.

A natureza do teu trabalho
deixa dias inteiros desperdiçados
quando entras para o comboio.

(cada poema contém um tweet de @Horse_ebooks. Os links encontram-se em noexperiences.com)

2017/02/05


But if sleep it was, of what nature, we can scarcely refrain from asking, are such sleeps as these? Are they remedial measures - trances in which the most galling memories, events that seem likely to cripple life for ever, are brushed with a dark wing which rubs their harshness off and gilds them, even the ugliest and the basest, with a lustre, an incandescence? Has the anger of death to be laid on the tumult of life from time to time lest it rend us asunder? Are we so made that we have to take death in small doses daily or we could not go on with the business of living? And then what strange powers are those that penetrate our most secret ways and change our most treasured possessions without our willing it?

VIRGINIA WOOLF, UK,
in Orlando, 1928

Mas se era sono, qual a natureza, pois não conseguimos deixar de perguntar, dos sonos como esse? Serão medidas terapêuticas - transes nos quais as memórias mais cruas, de acontecimentos que parecem capazes de deformar a vida para sempre, são varridas por uma asa obscura que lhes tira aspereza e os doura, até os mais vis e feios, com um lustro, uma incandescência? A fúria da morte tem de cair sobre o tumulto da vida, de quando em quando, para que ele não nos desfaça? Somos feitos de tal maneira que precisamos de tomar a morte em pequenas doses diárias, sem o que não conseguiríamos levar por diante a tarefa de viver? E também que poderes estranhos são esses que penetram os nossos modos mais secretos e transformam o que de mais precioso possuímos contra a nossa vontade?

2016/07/04


Of the things we fashioned for them that they might be comforted, dawn is the one that works. When darkness sifts from the air like fine soot and light spreads slowly out of the east then all but the most wretched of humankind rally. It is a spectacle we enjoy immortals, this minor daily resurrection, we will often gather at the ramparts of the clouds and gaze upon them, our little ones, as they bestir themselves to welcome the new day. What a silence falls upon us then, the sad silence of our envy. Many of them sleep on, of course, careless of our cousin's charming Aurora matutinal trick, but there are always the insomniacs, the restless ill, the lovelorn solitary tossing on their beds, or just the early-risers, the busy ones, with their knee-bends and their cold showers and their fussy little cups of black ambrosia. Yes, all who witness it greet the dawn with joy, more or less, except of course the condemned man, for whom first light will be the last, on earth.

JOHN BANVILLE, Irlanda,
in The Infinities, 2009


Das coisas que concebemos para poder confortá-los, o amanhecer é a que dá efeito. Quando a escuridão se separa do ar, fina como fuligem branda e a luz sai de leste e se espraia lentamente, então toda a espécie humana, com excepção dos mais desgraçados, recupera. É um espectáculo que nós, imortais, apreciamos, essa pequena ressurreição diária; quase sempre nos juntamos nos parapeitos das nuvens e fitamos lá em baixo os nossos petizes, enquanto eles se alvoroçam para acolher o novo dia. Abate-se então sobre nós um silêncio... o silêncio triste da inveja. Muitos deles ainda dormem, é claro, indiferentes ao fascinante truque matutino da nossa prima Aurora, mas há sempre os insones, os doentes agitados, os infelizes no amor, às voltas em camas solitárias, ou os simples madrugadores, atarefados com as flexões e os duches frios e as chavenazinhas extravagantes de ambrósia negra. Sim, todos os que vêem o amanhecer saúdam-no com alegria maior ou menor, excepto obviamente o condenado, para quem a primeira luz será última, na Terra.

2016/06/12

                                     

Mark this farther and remember. The end comes suddenly. Enter that antechamber of birth where the studious are assembled and note their faces. Nothing, as it seems, there of rash or violent. Quietude of custody rather, befitting their station in that house, the vigilant watch of shepherds and of angels about a crib in Bethlehem of Juda long ago. But as before the lightning the serried stormclouds, heavy with preponderant excess of moisture, in swollen masses turgidly distended, compass earth and sky in one vast slumber, impending above parched field and drowsy oxen and blighted growth of shrub and verdure till in an instant a flash rives their centres and with the reverberation of the thunder the cloudburst pours its torrent, so and not otherwise was the transformation, violent and instantaneous, upon the utterance of the Word.

JAMES JOYCE, Irlanda
in Ulysses, 1922


Nota mais isto e lembra-te. O fim vem de repente. Entra nessa antecâmara do nascimento onde os estudiosos se reúnem e repara nos rostos deles. Nada, como se afigura, de apressado ou violento. Antes quietude protectora, própria do seu estatuto na casa, guarda vigilante de pastores e de anjos a um berço em Belém de Judá há muito tempo. Mas como dantes o relâmpago as compactas nuvens de tormenta, carregadas do excesso preponderante de humidade, em massas dilatadas, túrgidas, inchadas, abarcam céu e terra numa única e vasta sonolência, iminentes sobre um campo ressequido e bois inertes e massa arrasada de arbustos e verdura até que num instante um clarão lhes fende os centros e com a reverberação do trovão a carga de água solta a torrente, assim e não de outro modo se deu a transformação, súbita e violenta, ao ser pronunciada a Palavra.


2016/06/07


Renovemos o nó, por mim desfeito,
Que eu já maldigo o tempo desgraçado,
Em que a teus olhos não vivi sujeito;
Concede-me outra vez o antigo agrado;
Que mais queres? Eu choro, e no meu peito...
O punhal do remorso está cravado.


MANUEL MARIA BARBOSA du BOCAGE, Portugal
in Soneto 23 (1799)

2016/05/15


Now, on this first Sunday of sunshine
we make this pilgrimage to be where
grass and bushes show the season in.

There is blossom there: the white sort 
and the red; dogs; and by the lake one duck
treads upon another for our pleasure.

There is movement: of birds behind leaves;
worms beneath the earth; and families
which were unrecognizable before Lowry.

We are not aware of how we fit into
the scene; after an hour we feel boredom, take
a last look at the trodden duck, and go away.

EDWIN BROCK, UK, An Idyll,1959



Hoje, neste primeiro domingo de sol
fazemos esta peregrinação para estar onde
erva e arbustos mostram a estação que chegou.

Há ali flores: umas brancas
e encarnadas; cães; e ao pé do lago um pato
monta outro para nos entreter.

Há movimento: de pássaros atrás de folhas;
bichos debaixo da terra; e famílias
que antes de Lowry ninguém reconheceria.

Não nos damos conta de como encaixamos
na cena; ao fim de uma hora estamos fartos, deitamos
um último olhar ao pato amassado, e vamo-nos embora.

2016/04/28


Registo três expressões cujo significado desconhecia. Obras mortas: parte do casco de uma embarcação que não está submersa; Obras vivas: parte submersa do casco de uma embarcação; Linha de água: linha que separa as obras mortas das obras vivas.
A linguagem náutica, porque lida com a vida e a morte, é extremamente precisa. Talvez por isso seja também extremamente poética.

ANA CRISTINA LEONARDO, Portugal
in "Diário do Farol A Ilha, a Cadela e Eu", 2016

2016/04/07


And so he and Nina met, and they became lovers, but he was still trying to win Tanya back from her husband, and then Tanya fell pregnant, and then he and Nina fixed a day for their wedding, but at the last minute he couldn’t face it so failed to turn up and ran away and hid, but still they persevered and a few months later they married, and then Nina took a lover, and they decided their problems were such that they should separate and divorce, and then he took a lover, and they separated and put in the papers for a divorce, but by the time the divorce came through they realised they had made a mistake and so six weeks after the divorce they remarried, but still they had not resolved their troubles. And in the middle of it all he wrote to his lover Yelena, ‘I am very weakwilled and do not know if I will be able to achieve happiness.’

JULIAN BARNES, UK, in The Noise of Time, 2015


E então ele e Nina conheceram-se, e tornaram-se amantes, mas ele continuava a tentar reconquistar Tanya ao marido, e foi então que Tanya ficou grávida, e depois ele e Nina marcaram um dia para o casamento, mas à última hora não foi capaz e por isso não apareceu, fugiu e escondeu-se, mas ainda assim persistiram e daí a uns meses casaram, e depois Nina arranjou um amante e concluíram que os problemas eram tantos que deviam separar-se e tratar do divórcio, e ele então arranjou uma amante e separaram-se e meteram os papéis para o divórcio, mas quando o divórcio saiu viram que tinham cometido um erro e assim, seis semanas após o divórcio voltaram a casar, mas ainda não tinham resolvido os problemas. E no meio disto tudo ele escreveu à sua amante Yelena: «Tenho muito pouca força de vontade e não sei se conseguirei alcançar a felicidade.»

2016/03/11


You are so civilized, so alert
In your tunnel, arching the drilled brain;
So dexterous in control
Of the tricky signals, the obvious gain.
I am outside, a truant soul,
Deep in the Word, stung by the dirt
Of primal clues which you disdain.

JACK CLEMO, U.K. in Outsider, 1958


És tão civilizado, tão alerta
No teu túnel, na malícia do cérebro amestrado;
Tão hábil a controlar
Os sinais ardilosos, o proveito óbvio.
Eu estou cá fora, alma prevaricadora,
Absorta na Palavra, ferida pela imundície
Das pistas primais que tu desdenhas.



2016/01/13


Les femmes connaissent leur arme. Il n´était pas necessaire d'apprendre à Suzanne qu'elle était devenue une force redoutable et charmante... Quand elle retrouva sa chambre, les deux tilleuls, le frêne, les glycines, les roses, les glaïeuls, les merles, les rouge-gorges, fils de ceux d'antan, les moineaux et les colombes, après un moment de mélancolie - souvenir de sa servitude - ele eut un grand éclair de joie...

J. H. ROSNY, França,
in La Jeune Vampire, 1820

As mulheres conhecem as suas armas. Não era necessário informar Suzanne de que se tornara uma força temível e encantadora... Quando reencontrou o seu quarto, as duas tílias, o freixo, as glicínias, as rosas, os gladíolos, os melros, os pintarroxos, filhos dos de outrora, os pardais e as pombas após um momento de melancolia - lembrança da sua servidão - teve uma grande explosão de alegria...

2016/01/01

 
 

E no meio de tantos perigos, constantes e flagrantes, era necessário comer! Ah! Comer - que portentosa empresa para nossos Pais veneráveis! Sobretudo desde que Adão (e depois Eva, por Adão iniciada) tendo provado os deleites fatais da carne, já não encontravam sabor, nem fartura, nem decência, nos frutos, nas raízes, e nos bagos do tempo da sua Animalidade. Certamente, as boas carnes não faltavam no Paraíso. Delicioso seria o salmão primitivo - mas nadava alegremente nas águas rápidas. Saborosa seria a galinhola, ou o faisão rutilante, nutridos com os grãos que o Criador considerara bons - mas voavam nos céus, em triunfal segurança. O coelho, a lebre - que fugas ligeiras no mato cheiroso!... E nosso Pai, nesses dias cândidos, não possuía o anzol nem a seta. Por isso, sem cessar rondava em torno das lagoas, nas ribas do mar, onde casualmente encalhava, boiando,  algum cetáceo morto. Mas esses achados de abundância eram raros - e o triste casal humano, nas suas marchas famintas pela borda das águas, só conquistava, aqui e além, na rocha ou na areia revolta, algum feio caranguejo em cuja dura casca os seus beiços se esgaçavam. Essas solidões marinhas andavam também infestadas por bandos de feras esperando, como Adão, que a vaga rolasse os peixes vencidos em borrasca ou batalha. E quantas vezes, nossos Pais, já com a garra cravada numa posta de foca ou golfinho, fugiam desconsoladamente, sentindo o passo fofo do horrendo espeleu, ou o bafo dos ursos brancos, bamboleando pelo branco areal, sob a branca indiferença da Lua!

JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS, Portugal,
em  Adão e Eva no Paraíso, "Contos", 1897

2015/11/15


Quand nous marchons seuls dans les bois, sa main passée autour de ma taille, la mienne sur son épaule, son corps tenant au mien, nos têtes se touchant, nous allons d'un pas égal, par un mouvement uniforme et si doux, si bien le même, que, pour des gens qui nous verraient passer, nous paraîtrions un même être glissant sur le sable des allées, à la façon des immortels d'Homère. Cette harmonie est dans le désir, dans la pensée, dans la parole. Quelquefois, sous la feuillée encore humide d'une pluie passagère, alors qu'au soir les herbes sont d'un vert lustré par l'eau, nous avons fait des promenades entières sans nous dire un seul mot, écoutant le bruit des gouttes qui tombaient, jouissant des couleurs rouges que le couchant étalait aux cimes ou broyait sur les écorces grises.
...................................................................
Et nous rentrons toujours plus amoureux l'un de l'autre. Cet amour entre deux époux semblerait une insulte à la société dans Paris. Il faut s'y livrer comme des amants, au fond des bois.

H. de BALZAC, França,
in Mémoires de Deux Jeunes Mariées, 1841


Quando caminhamos sozinhos pelos bosques, a mão dele à volta da minha cintura, a minha no ombro dele, o seu corpo junto ao meu e as nossas cabeças unidas, seguimos com passo igual, num movimento uniforme e tão suave, tão idêntico, que, para pessoas que nos vissem passar, pareceríamos um mesmo ser a deslizar no saibro dos carreiros, à maneira dos imortais de Homero. Esta harmonia está no desejo, no pensamento, na palavra. Por vezes, sob a folhagem ainda húmida após uma chuva passageira, quando ao entardecer as ervas são de um verde polido pela água, já nós demos voltas e voltas sem dizer uma única palavra, escutando o som das gotas que caíam, apreciando o vermelho das cores que o poente estendia nos cumes ou juntava aos troncos cinzentos.
...................................................................
E voltamos sempre mais apaixonados um pelo outro. Este amor entre esposos pareceria um insulto à sociedade, em Paris. Temos de nos entregar a ele como amantes, embrenhando-nos nos bosques.

2015/10/07



O abade, dias depois, reconciliado com a desgraça, entrava na residência, e perguntava a Eufémia:
- Ó rapariga, tu tens irmão no Brasil?
- Porque perguntas isso, ó idolatrado? ...
-É que, se tivesses, qualquer dia ele entrava por aí dentro barão; e eu, nesse caso, precisava ir desde já deitando o olho a quem me viesse governar a casa.
- Isso é o que tu querias, idolatrado!
E punha-se a catá-lo.
Eufémia, quando era costureira de Madama Guichard, teve um segundo-sargento a quem chamava o seu idolatrado. Depois desse teve nove, uma súcia, incluso o abade, todos idolatrados. Ela ardera muito sem se gastar, como a sarça-de-moisés. Cada vez mais gorda e frescal. O abade, em momentos de rapto religioso, dizia cheio de unção: Os Céus indemnizaram-me da ingratidão da outra bêbeda.


CAMILO CASTELO BRANCO,
in Eusébio Macário, 1879

2015/09/17


The Songs

Continuous, a medley of old pop numbers -
Our lives are like this. Three whistled bars
Are all it takes to catch us, defenceless
On a District Line platform, sullen to our jobs,
And the thing stays with us all day, still dapper,
        still Astaire,
Still fancy-free. We're dreaming while we work.

Be careful, keep afloat, the past is lapping your chin.
South Of The Border is sad boys in khaki
In 1939. And J'attendrai a transit camp,
Tents in the dirty sand. Don't go back to Sorrento.
Be brisk and face the day and set your feet
On the sunnny side always, the sunny side of the
       street.

MARTIN BELL, U.K., 1962


As Canções

Contínua, uma mistura de velhas actuações pop -
As nossas vidas são assim. Três cassetetes e um apito
Chegam para nos apanhar, sem defesa
Numa gare da District Line, taciturnos a caminho do emprego,
E a coisa fica connosco o dia inteiro, ainda elegante,
       ainda Astaire,
Ainda livre devaneio. Sonhamos a trabalhar.

Tem cuidado, mantém-te à tona, o passado dá-te pelo queixo.
A Sul Da Fronteira tem rapazes tristes de caqui
Em 1939. E J'attendrai tem um acampamento militar,
Tendas na areia suja. Não voltes a Sorrento.
Sê rápido e enfrenta o dia e caminha
Sempre pelo lado do sol, pelo lado da rua onde há
       sol.

2015/07/30

 
 
Particle Horizon

Why critique failure
on the thing’s visible part, the suggested part?

All parts want to fail into an abidance.
No emission appears 

except for one critical remark in the form of a naughty [drawing--
it defects,

renders the arm, the leg, and the smell,
explodes twice,

costs the arm.
I wonder if dehydration is like this:

A stud-finder detects a metal detector.
I think that dehydration is not like this.

The abstract in rage declares,
“My true love’s orange is orange!”
 
CHRISTINE KELLY, U.S.A., 2014


 
Horizonte de Partículas

Porquê criticar o fracasso
a partir da parte visível de uma coisa, a parte sugerida?
  
Todas as partes querem fracassar e obedecer.
Não aparece nada expresso
  
só uma nota crítica em forma de desenho brejeiro--
deserta,
  
traduz o braço, a perna e o cheiro,
explode duas vezes,
  
sacrifica o braço.
Não sei se desidratação é isto:
  
Um detector de metal oculto detecta o detector de [metais.
Acho que desidratação não é isto.
  
Em fúria, o abstracto declara:
“A laranja do meu verdadeiro amor é cor-de-laranja!”

 


2015/06/16


Everyone thought the world of her for her gentle ways. It was Gerty who turned off the gas at the main every night and it was Gerty who tacked up on the wall of that place where she never forgot every fortnight the chlorate of lime Mr. Tunney the grocer's Christmas almanac the picture of halcyon days where a young gentleman in the costume they used to wear then with a three cornered hat was offering a bunch of flowers to his ladylove with oldtime chivalry through her lattice window. You could see there was a story behind it. The colours were done something lovely. She was in a soft clinging white in a studied attitude and the gentleman was in chocolate and he looked a thorough aristocrat. She often looked at them dreamily when there for a certain purpose and felt her own arms that were white and soft just like hers with the sleeves back and thought about those times because she had found out in Walker's pronouncing dictionary that belonged to grandpapa Giltrap about the halcyon days what they meant.


JAMES JOYCE, Irlanda,
em Ulysses, 1922



Todos a tinham em grande conta pelos seus modos delicados. Era Gerty que desligava todas as noites o gás na conduta e era Gerty que pregava tachas na parede do local onde nunca esquecia de quinze em quinze dias a cal Mr.Tunney a mercearia o almanaque de Natal a imagem de dias idílicos em que um jovem com o fato que então se usava e chapéu de três bicos oferecia um ramo de flores à amada com cortesia antiga através da gelosia. Via-se que havia uma história por trás. As cores davam um efeito lindo. Ela vestia de branco suave cingido com uma atitude estudada e o jovem vestia de castanho chocolate e parecia um perfeito aristocrata. Olhava-os muitas vezes sonhadora quando ali ia para qualquer fim e sentia os seus próprios braços que eram brancos e macios tal como os dela com as mangas para trás e pensava nesses tempos porque descobrira no Walker dicionário com pronúncia que pertencia ao avô Giltrap o que eram dias idílicos o que significavam.

2015/06/10

 

Vão os anos descendo, e já do Estio
Há pouco que passar até o Outono;
A Fortuna me faz o engenho frio,
Do qual já não me jacto nem me abono;
Os desgostos me vão levando ao rio
Do negro esquecimento e eterno sono.
Mas tu me dá que cumpra, ó grão Rainha
Das Musas, co que quero à nação minha.

LUÍS VAZ de CAMÕES, Portugal,
in "Os Lusíadas", Canto X, Estrofe 9

2015/05/18

 



que é
como quem diz: a multidão de palavras
todas elas esquerdas como se escreve,
e há o impulso de apertar a mão rara com a sua rosa
                                                              penta tatuada
- topas?
(tu que não topas nunca nada)
- vai-te lá embora
(tu que nem de dia nem de noite te vais embora)
- desampara-me a loja
(tu que não me amparas nunca
profunda outra carne humana)

HERBERTO HELDER, Portugal,
em Poemas Canhotos, 2015

2015/05/08

                          VALÉRIE ROUZEAU, Prix Apollinaire 2015    
                                 
Nous n'irons plus aux champignons
le brouillard a tout mangé les chèvres
blanches et nos paniers.
Nos n'irons pas non plus dans les
cités énormes qui sont des baleines
grises très bien organisées où nos coeurs
se perdraient.
Ni au cinéma ni au cirque, ni au café-concert
ni aux courses cyclistes.
Nous n'irons pas nous n'irons plus
pas plus que nous n'irons que nous ne
rirons pas que nous ne rirons plus que
nous ne rirons ronds.

VALÉRIE ROUZEAU, França,
in Patiences, 1994


Já não iremos aos cogumelos
o nevoeiro comeu tudo as cabras
brancas e os nossos cestos.
Também já não iremos às
cidades enormes que são baleias
cinzentas muito bem organizadas onde os nossos corações
se perderiam.
Nem ao cinema nem ao circo, nem ao café-concerto
nem às corridas de ciclistas.
Não iremos já não iremos
e também não
riremos já não riremos
nem a rir nos perderemos.

2015/05/06

                           WILLIAM CLIFF, Prix GONCOURT 2015

à mon retour d’Amérique tu vis
venir à mes tempes des mèches blanches
« William tu n’as guère changé » me dis-
tu « sauf ces mèches blanches sur tes tempes »
mon voyage au-delà de l’écumante
mer Atlantique à rechercher ta trace
fut-il tant éprouvant ? ça me tracasse
très peu cette blancheur de mes cheveux
qu’elle soit blanche ou noire ma tignasse
m’importe peu car c’est Toi que je veux

WILLIAM CLIFF, Bélgica,
in Autobiographie, 2009


no meu regresso da América, viste
aparecer nas minhas têmporas uns cabelos brancos
«William não mudaste nada» disseste
«para além desses cabelos brancos nas têmporas»
a minha viagem para lá da espuma
do Atlântico a procurar o teu rasto
foi assim tão tormentosa? incomoda-me
muito pouco o branco dos meus cabelos
que a minha cabeleira seja branca ou negra
importa-me pouco porque é a Ti que eu quero

2015/05/04



Venus her Myrtle, Phoebus has his bays;
Tea both excels, which she vouchsafes to praise.
The best of Queens, the best of herbs, we owe
To that bold nation which the way did show
To the fair region where the sun doth rise,
Whose rich productions we so justly prize.
The Muse's friend, tea does our fancy aid,
Regress those vapours which the head invade,
And keep the palace of the soul serene,
Fit on her birthday to salute the Queen.

EDMUND WALLER, U.K.,
no 25º aniversário de Catarina de Bragança, 25.11.1663



Vénus com a murta e Febo com o loureiro;
A ambos suplanta o chá, que ela se digna louvar.
A melhor Rainha, a melhor planta, devemo-las
À intrépida nação que abriu caminho
Até às belas regiões onde o sol nasce,
E cuja rica produção tão justamente apreciamos.
Amigo das musas, o chá anima a nossa fantasia,
Desfaz as névoas que a cabeça invadem
E mantém sereno o palácio da alma,
Pronto a saudar a Rainha no seu dia de anos.

2015/05/03


A caseira tinha um filho pequeno chamado Artaxerxes. O nome arrevesado punha-o doido, e tornou-se, além disso, muito mau. Todos se espantavam de ele se chamar assim; e tudo era culpa dum padrinho rico que sabia muito de História antiga.
- Xerxes - dizia a mãe -, vai apanhar erva para os coelhos. - Ou então gritava do fundo do campo: - Xerxes... Xerxes, anda cá nino...
Nino queria dizer menino. E perro queria dizer zangado. A mãe de Xerxes, a senhora Teodora, estava quase sempre perra. Também tinha duas filhas, bonitas como só visto. Os cabelos brilhavam ao sol, ainda que tivessem em cima uma boa camada de cinza da lareira. Emília achava-as vaidosas e namoradeiras, mas Lourença pensava que elas tinham mais razão para isso do que Marta. E Marta não largava o espelho todo o santo dia. Isto do santo dia foi coisa que Lourença nunca percebeu. Quando a mãe se aborrecia com uma criada, dizia: «Não faz nada todo o santo dia.» E tomava um ar mortificado.

AGUSTINA BESSA-LUÍS, Portugal,
em Dentes de Rato, 2012

2015/03/24

   
para "Os Passos em Volta" de HERBERTO HELDER, desenhos de ANA CARDOSO, 1997 (pormenor)    

O barulho do mar e do vento. A ideia da montanha impraticável. A terra arenosa por ali adiante. E a solidão. E, sobretudo, saber que já não pode haver qualquer espécie de medo. Então fecharei todas as portas da casa, a porta para fora e as portas dos quartos entre si. Ficarei no quarto sem soalho e deitar-me-ei no chão. Hei-de ouvir o mar e o vento, e hei-de saber que a montanha está atrás de mim, poderosa e só. Poderei ouvir também o sussurro da terra húmida debaixo do meu corpo. Encostarei a cara a esta terra profundíssima. Até que morrerei.

HERBERTO HELDER, Portugal,
em Os Passos em Volta, 1963

2015/03/17


I on the other hand believe that poetry and romance cannot be made by the most conscientious study of famous moments and of the thoughts and feelings of others, but only by looking into that little, infinite, faltering, eternal flame that we call ourselves. If a writer wishes to interest a certain people among whom he has grown up, or fancies he has a duty towards them, he may choose for the symbols of his art their legends, their history, their beliefs, their opinions, because he has a right to choose among things less than himself, but he cannot choose among the substances of art. So far, however, as this book is visionary it is Irish, for Ireland which is still predominantly Celtic has preserved with
some less excellent things a gift of vision, which has died out among more hurried and more suc-
cessful nations: no shining candelabra have prevented us from looking into the darkness, and when one looks into the darkness there is always something there.

W. B. YEATS, Irlanda,
na dedicatória de Rosa Alchemica a George Russell (A. E.), em Londres, 1896


Creio, porém, que poesia e romance não podem fazer-se nem com o mais consciencioso estudo de momentos famosos nem com sentimentos e ideias de outros, mas só olhando esse pequeno, infinito, vacilante e eterno brilho a que chamamos nós próprios. Se um escritor quer agradar a certas pessoas junto das quais cresceu, ou imagina que tem um dever para com elas, pode escolher como símbolos da sua arte as lendas, a história, as crenças e as opiniões que são delas, porque tem o direito de escolher coisas inferiores a si próprio - o que não pode é escolher a substância da arte. Mas este livro é irlandês por ser visionário, pois a Irlanda, que ainda é predominantemente celta, conservou a par de outras coisas o dom da visão, que morreu entre nações mais prósperas e apressadas: não houve candelabros resplandecentes que nos impedissem de olhar a escuridão e, quando olhamos a escuridão, está lá sempre alguma coisa.

2015/02/22

 
 


«I have tasted eggs, certainly,» said Alice, who was a very truthful child; «but little girls eat eggs quite as much as serpents do, you know.»
«I don't believe it,» said the Pigeon; «but if they do, why then they're a kind of serpent, that's all I can say.»
This was such a new idea to Alice, that she was quite silent for a minute or two, which gave the Pigeon the opportunity of adding, «You're looking for eggs, I know that well enough; and what does it matter to me whether you're a little girl or a serpent?»
«It matters a good deal to me,» said Alice hastily; «but I'm not looking for eggs, as it happens; and if I was, I shouldn't want yours: I don't like them raw.»

LEWIS CARROLL, U.K.
in Alice's Adventures in Wonderland, 1865


«É claro que comi ovos,» disse Alice, que era uma criança muito sincera, «mas sabes, as meninas comem ovos tal e qual como as serpentes.»      
«Não acredito,» disse a Pomba, «mas se comem, então só te digo que és uma espécie de serpente.»
Aquilo era uma ideia tão nova para Alice, que ela ficou calada um minuto ou dois, o que deu à Pomba oportunidade para acrescentar: «Andas à procura de ovos, isso eu sei; e que me interessa que sejas uma menina ou uma serpente?»
«Interessa-me a mim,» disse Alice exaltada, «mas não ando à procura de ovos, por sinal; e se andasse, não queria os teus; não gosto deles crus.»

2015/01/23


What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.

T.S. ELIOT, USA / UK,
in "The Burial of the Dead" (The Waste Land, 1922)


O que são as raízes que se agarram, que ramos nascem
Desta lixeira de pedras? Filho do homem,
Não consegues dizer, nem adivinhar, pois conheces só
Um monte de imagens desfeitas, onde o sol bate,
E a árvore morta não dá abrigo, o grilo não dá descanso,
E a pedra seca não soa a água. Só
Há sombra sob esta rocha encarnada,
(Anda para a sombra desta rocha encarnada),
E mostrar-te-ei uma coisa diferente quer
Da tua sombra que, de manhã, te segue a passos largos,
Quer da tua sombra que, ao anoitecer, se levanta para te alcançar;
Mostrar-te-ei o medo numa mão cheia de pó.

2015/01/03

 
Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom

Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom

Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom

Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom

Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom
.......
Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom
.......
Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer
Liberté.

PAUL ELUARD, França,
in  Au rendez-vous allemand, 1945


Nos meus cadernos de estudante
Na minha carteira e nas árvores
Na areia e na neve
Escrevo o teu nome

Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome

Nas imagens douradas
Nas armas dos guerreiros
Na coroa dos reis
Escrevo o teu nome

Na selva e no deserto
Nos ninhos e nos arbustos
No eco da minha infância
Escrevo o teu nome

Nas noites das maravilhas
No pão branco dos dias
Na época dos enlaces
Escrevo o teu nome
.......
Em toda a carne que consente
Na fronte dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome
.......
E pelo poder duma palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Para te nomear
Liberdade.

2014/12/19



Mark this farther and remember. The end comes suddenly. Enter that antechamber of birth where the studious are assembled and note their faces. Nothing, as it seems, there of rash or violent. Quietude of custody rather, befitting their station in that house, the vigilant watch of shepherds and of angels about a crib in Bethlehem of Juda long ago. But as before the lightning the serried stormclouds, heavy with preponderant excess of moisture, in swollen masses turgidly distended, compass earth and sky in one vast slumber, impending above parched field and drowsy oxen and blighted growth of shrub and verdure till in an instant a flash rives their centres and with the reverberation of the thunder the cloudburst pours its torrent, so and not otherwise was the transformation, violent and instantaneous, upon the utterance of the Word.

JAMES JOYCE, Irlanda
in Ulysses, 1922


Nota mais isto e lembra-te. O fim vem de repente. Entra nessa antecâmara do nascimento onde os estudiosos se reúnem e repara nos rostos deles. Nada, como se afigura, de apressado ou violento. Antes quietude protectora, própria do seu estatuto na casa, guarda vigilante de pastores e de anjos a um berço em Belém de Judá há muito tempo. Mas como dantes o relâmpago as compactas nuvens de tormenta, carregadas do preponderante excesso de humidade, em massas dilatadas, túrgidas, inchadas, abarcam céu e terra numa única e vasta sonolência, iminentes sobre um campo ressequido e bois inertes e massa arrasada de arbustos e verdura até que num instante um clarão lhes fende os centros e com a reverberação do trovão a carga de água solta a sua torrente, assim e não de outro modo se deu a transformação, súbita e violenta, ao ser pronunciada a Palavra.