2009/06/10

Um não sei quê, suave, respirando,
Causava um admirado e novo espanto,
Que as cousas insensíveis o sentiam.
E as gárrulas aves, levantando
Vozes desordenadas em seu canto,
Como no meu desejo, se encendiam.
As fontes cristalinas não corriam,
Inflamadas na linda vista pura;
Florecia a verdura
Que, andando, co’os divinos pés tocava;
Os ramos se abaixavam,
Ou de enveja das ervas que pisavam,
Ou porque tudo ante ela se baixava.
Não houve coisa, enfim,
Que não pasmasse dela, e eu de mim.


LUÍS VAZ DE CAMÕES, PORTUGAL,
in Canção VII, c. 1570

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