
2009/05/18
What are days for?
Days are where we live.
They come, they wake us
Time and time over.
They are to be happy in:
Where can we live but days?
Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor
In their long coats
Running over the fields.
PHILIP LARKIN, U.K.
“Days”, The Whitsun Weddings, 1964
Para que são os dias?
É nos dias que vivemos.
Chegam, acordam-nos
Vezes sem conta.
Existem para neles sermos felizes:
Onde podemos viver senão nos dias?
Ah, o resolver desta questão
Leva o padre e o médico
Em suas vestes longas
A correr pelos campos.
Days are where we live.
They come, they wake us
Time and time over.
They are to be happy in:
Where can we live but days?
Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor
In their long coats
Running over the fields.
PHILIP LARKIN, U.K.
“Days”, The Whitsun Weddings, 1964
Para que são os dias?
É nos dias que vivemos.
Chegam, acordam-nos
Vezes sem conta.
Existem para neles sermos felizes:
Onde podemos viver senão nos dias?
Ah, o resolver desta questão
Leva o padre e o médico
Em suas vestes longas
A correr pelos campos.
2009/05/10
Tão longe - na costa do Pacífico! Iam conhecer a América, o novo mundo! Iam falar inglês, viver no país de tantos artistas que admiravam, e de tantos outros por descobrir, o país que dez anos antes ajudara a Europa a derrotar Hitler e a reconstruir-se. E São Francisco tinha fama de ser a cidade chic da Costa Oeste, uma cidade agradável e sofisticada.
Após uma breve estada em Portugal para as despedidas, que incluiu um passeio de automóvel ao norte de Portugal, Vasco e Margarida embarcaram com as filhas a caminho de Nova Iorque, acompanhados de Zulmira, que entrou nesse dia para a família e passou a ser a sua melhor aliada.
VERA FUTSCHER PEREIRA, PORTUGAL,
in "Retrovisor", 2009
Após uma breve estada em Portugal para as despedidas, que incluiu um passeio de automóvel ao norte de Portugal, Vasco e Margarida embarcaram com as filhas a caminho de Nova Iorque, acompanhados de Zulmira, que entrou nesse dia para a família e passou a ser a sua melhor aliada.
VERA FUTSCHER PEREIRA, PORTUGAL,
in "Retrovisor", 2009
2009/05/03
We walk along the waterfront. The night
fishermen’s boats are ready to set out,
motors chugging, paraffin lamps in the bows,
and the whole town’s out for the promenade,
lovers arm in arm, and young men swaggering,
mothers and fathers, children eating ice-cream,
old men watching from tables at pavement cafés,
and the darkening hills move closer, like friendly animals.
RICHARD BURNS, U.K.,
in "Volta", 2009
Caminhamos pelo cais. À noite
os barcos dos pescadores estão prestes a largar,
motores rugem, candeias de parafina à proa,
e toda a cidade anda na rua a passear,
amantes de braço dado e jovens emproados,
mães e pais, crianças a comer gelados,
velhos a olhar das mesas dos cafés, nos passeios,
e escuras, como animais benignos, acercam-se as colinas.
fishermen’s boats are ready to set out,
motors chugging, paraffin lamps in the bows,
and the whole town’s out for the promenade,
lovers arm in arm, and young men swaggering,
mothers and fathers, children eating ice-cream,
old men watching from tables at pavement cafés,
and the darkening hills move closer, like friendly animals.
RICHARD BURNS, U.K.,
in "Volta", 2009
Caminhamos pelo cais. À noite
os barcos dos pescadores estão prestes a largar,
motores rugem, candeias de parafina à proa,
e toda a cidade anda na rua a passear,
amantes de braço dado e jovens emproados,
mães e pais, crianças a comer gelados,
velhos a olhar das mesas dos cafés, nos passeios,
e escuras, como animais benignos, acercam-se as colinas.
2009/04/12
I have learned much in my life
from books
and out of them
about love.
Death
is not the end of it.
There is a hierarchy
which can be attained,
I think,
in its service.
Its guerdon
is a fairy flower;
WILLIAM CARLOS WILLIAMS, EUA,
in "From Asphodel, That Greeny Flower", 1950
Aprendi muito na minha vida
com os livros
e fora deles
sobre o amor.
A morte
não lhe põe fim.
Há uma hierarquia,
penso eu,
que podemos alcançar
servindo-o.
A recompensa
é uma flor feérica;
from books
and out of them
about love.
Death
is not the end of it.
There is a hierarchy
which can be attained,
I think,
in its service.
Its guerdon
is a fairy flower;
WILLIAM CARLOS WILLIAMS, EUA,
in "From Asphodel, That Greeny Flower", 1950
Aprendi muito na minha vida
com os livros
e fora deles
sobre o amor.
A morte
não lhe põe fim.
Há uma hierarquia,
penso eu,
que podemos alcançar
servindo-o.
A recompensa
é uma flor feérica;
2009/03/30
2009/03/27
2009/03/08
2009/03/05
Com o tempo este casal [fausto e riqueza] faz o seu ninho na vida dos homens, no dizer dos filósofos, e logo trata de se reproduzir; engendra a cupidez, o orgulho e a moleza, que não são bastardos, mas filhos perfeitamente legítimos da sua união. E, se deixarmos esses descendentes da riqueza avançar em idade, depressa eles geram nas almas tiranos inexoráveis: insolência, ilegalidade e impudência.
LONGINO, Grécia, c. 220-273
in Tratado do Sublime
LONGINO, Grécia, c. 220-273
in Tratado do Sublime
2009/02/23
(à memória de A. A. LAGOA HENRIQUES, 1923-2009)
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
FERNANDO PESSOA, Portugal,
in [275] Alberto Caeiro, 1915
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
FERNANDO PESSOA, Portugal,
in [275] Alberto Caeiro, 1915
2009/02/21
A hipótese de legalização da eutanásia ou do suicídio assistido, bem como a possibilidade de, finalmente, serem legalizados os "testamentos vitais" que nos permitiriam evitar o risco de sermos transformados em carcaças respiratórias ou de sermos minuciosamente torturados em nome do respeito pela vida, são igualmente consideradas medidas eleitoralistas. Provavelmente são, também, medidas que relevam mais de considerações eleitoralistas do que de uma vontade genuína de melhorar a qualidade da nossa vida e da nossa morte mas, se vierem a ser concretizadas, contribuirão seguramente para um Portugal melhor.
As torturas hospitalares infligidas para nosso bem, de que todos podemos ser vítimas quando já não pudermos expressar a nossa vontade, não nos devem fazer esquecer a sorte daqueles que foram torturados em Guantánamo e que, provavelmente também com fins eleitoralistas, irão ser recolhidos no nosso país.
FRANCISCO TEIXEIRA DA MOTA, Portugal,
in jornal "Público", 21.02.2009
As torturas hospitalares infligidas para nosso bem, de que todos podemos ser vítimas quando já não pudermos expressar a nossa vontade, não nos devem fazer esquecer a sorte daqueles que foram torturados em Guantánamo e que, provavelmente também com fins eleitoralistas, irão ser recolhidos no nosso país.
FRANCISCO TEIXEIRA DA MOTA, Portugal,
in jornal "Público", 21.02.2009
2009/02/19
C´était une jolie portugaise, aux yeux à la fois chauds et tristes, d'une distinction extrême. Elle était petite à côté de son mari, fine et joliment tournée. Elle portait une robe de dentelle noire. A chacun, elle disait quelques mots de bienvenue, d'une voix grave et prenante. Elle m'adressa la parole en français, d'une façon un peu chantante, pleine de séduction, et que je n'ai pas oubliée.
THOMAS OWEN, Bélgica,
in "L'Impromptu d'Évora", 1972
Era uma bela portuguesa, de olhos ao mesmo tempo quentes e tristes, de uma distinção extrema. Era pequena ao lado do marido, fina e de bela figura. Usava um vestido de renda preta. Dava a cada um algumas palavras de boas-vindas, com voz grave e cativante. Dirigiu-se-me em francês, num tom um pouco cantante e cheio de sedução, que não esqueci.
THOMAS OWEN, Bélgica,
in "L'Impromptu d'Évora", 1972
Era uma bela portuguesa, de olhos ao mesmo tempo quentes e tristes, de uma distinção extrema. Era pequena ao lado do marido, fina e de bela figura. Usava um vestido de renda preta. Dava a cada um algumas palavras de boas-vindas, com voz grave e cativante. Dirigiu-se-me em francês, num tom um pouco cantante e cheio de sedução, que não esqueci.
2009/02/12
CUCUMBER CREAM
2T lemon juice, 1 T honey, 1 cup drained diced cucumber, 1 cup yogurt, salt, pepper
Mix lemon juice, honey and cucumber. Whip yogurt and fold in the cucumber mixture. Season with salt and pepper. Serve cold with broiled fish, cold poached fish, shrimp salad or sliced tomato.
JEANNE VOLTZ, E.U.A.,
in The Los Angeles Times "Natural Foods Cookbook", 1973
CREME DE PEPINO
2 colheres de sopa de sumo de limão, 1 colher de sopa de mel, 1 chávena de cubos de pepino escorridos, 1 chávena de iogurte, sal, pimenta
Misturar o sumo de limão, o mel e o pepino. Bater o iogurte e juntar. Temperar com sal e pimenta. Servir com peixe grelhado, peixe cozido frio, salada de camarão ou rodelas de tomate.
2T lemon juice, 1 T honey, 1 cup drained diced cucumber, 1 cup yogurt, salt, pepper
Mix lemon juice, honey and cucumber. Whip yogurt and fold in the cucumber mixture. Season with salt and pepper. Serve cold with broiled fish, cold poached fish, shrimp salad or sliced tomato.
JEANNE VOLTZ, E.U.A.,
in The Los Angeles Times "Natural Foods Cookbook", 1973
CREME DE PEPINO
2 colheres de sopa de sumo de limão, 1 colher de sopa de mel, 1 chávena de cubos de pepino escorridos, 1 chávena de iogurte, sal, pimenta
Misturar o sumo de limão, o mel e o pepino. Bater o iogurte e juntar. Temperar com sal e pimenta. Servir com peixe grelhado, peixe cozido frio, salada de camarão ou rodelas de tomate.
2009/02/02
Havia um sofá que se achava triste. E uma poltrona que vivia alegre. Havia uma cadeira de baloiço que ficava tonta. E uma mesa de centro que temia manchas. Havia dois quadros macambúzios na parede. Havia um tapete que queria ser uma estante. Havia uma estante que detestava livros. As almofadas do sofá viviam em alegre cavaqueira mas não convenciam ninguém. Nenhuma quisera ser solteira. Havia um candelabro apaixonado por um lustre de seis lâmpadas. Havia um lustre de seis lâmpadas com vertigens. Havia um pó traiçoeiro. Havia caruncho guerreiro. Havia uns mosaicos psicadélicos, que preferiam ser sóbrios. Havia uns redondos que queriam ser quadrados, havia uns vermelhos que queriam ser azuis. Havia riscas que queriam ser flores. Havia uns padrões dos anos oitenta, que queriam ser dos anos 30.
EILEEN ALMEIDA BARBOSA, Cabo Verde,
in “A Sala”, 2007
EILEEN ALMEIDA BARBOSA, Cabo Verde,
in “A Sala”, 2007
2009/01/28
She went into the bathroom. She closed the door! So he couldn't watch. No free pleasures, he saw, was one of the rules. Naked, he sat on the bed, picked the Blake from the bureau top, and read,
The Lamb misus'd breeds Public strife
And yet forgives the Butcher's Knife.
The Bat that flits at close of Eve
Has left the Brain that won't Believe.
The toilet flushed; the faucets purred. She emerged still wearing those bothersome, unlovely boots, and gave his limp penis a glance he thought scornful. Only the alcohol helped him ask, «Want to lie down?»
JOHN UPDIKE, U.S.A., 1932-2009
in "Transaction", 2003
Ela entrou na casa de banho. Fechou a porta! Assim ele não podia olhar. Não há prazeres grátis, percebeu que essa era uma das regras. Nu, sentou-se na cama, tirou o Blake de cima da secretária e leu:
O Cordeiro maltratado espalha o conflito Aberto
E no entanto perdoa à Faca do Verdugo.
O Morcego que esvoaça ao redor de Eva
Saiu do Cérebro que não quer Acreditar.
O autoclismo descarregou; as torneiras fizeram um ruído surdo. Ela surgiu, sempre com aquelas botas enervantes, feias, e deitou ao pénis mole um olhar que ele achou de troça. Só o álcool o ajudou a perguntar: «Queres deitar-te?»
The Lamb misus'd breeds Public strife
And yet forgives the Butcher's Knife.
The Bat that flits at close of Eve
Has left the Brain that won't Believe.
The toilet flushed; the faucets purred. She emerged still wearing those bothersome, unlovely boots, and gave his limp penis a glance he thought scornful. Only the alcohol helped him ask, «Want to lie down?»
JOHN UPDIKE, U.S.A., 1932-2009
in "Transaction", 2003
Ela entrou na casa de banho. Fechou a porta! Assim ele não podia olhar. Não há prazeres grátis, percebeu que essa era uma das regras. Nu, sentou-se na cama, tirou o Blake de cima da secretária e leu:
O Cordeiro maltratado espalha o conflito Aberto
E no entanto perdoa à Faca do Verdugo.
O Morcego que esvoaça ao redor de Eva
Saiu do Cérebro que não quer Acreditar.
O autoclismo descarregou; as torneiras fizeram um ruído surdo. Ela surgiu, sempre com aquelas botas enervantes, feias, e deitou ao pénis mole um olhar que ele achou de troça. Só o álcool o ajudou a perguntar: «Queres deitar-te?»
2009/01/25
Pedir a Deus ajuda e bênção para os EUA não garante, só por si, que o Presidente respeitará o desígnio da Constituição e, quanto à Biblia, há, nessa biblioteca, de tudo para todos os gostos. Com o mesmo juramento, Bush foi uma desgraça mundial e aguardo que o novo Presidente não ajude nem permita desgraças como a invasão do Iraque e a matança de Gaza. Tornou-se, no entanto, evidente que a autenticidade humana, política e religiosa, manifestada no seu itinerário até à tomada de posse, suscitou uma fé e uma esperança colectivas, um desígnio comum, uma vontade de vencer a crise, como um serviço a toda a América e ao mundo. Um sentimento religioso, transcendente e humano percorreu esse dia.
FREI BENTO DOMINGUES O.P., Portugal
in jornal "Público", 25.01.2009
FREI BENTO DOMINGUES O.P., Portugal
in jornal "Público", 25.01.2009
2009/01/21
Obama herda uma América em perda de influência, não só pelo encadeamento de desastres políticos desde a invasão do Iraque, mas pela ascensão "do resto", nomeadamente da Ásia. Cabe-lhe elaborar a nova estratégia americana perante esta inexorável mudança, o "mundo pós-americano", que ele parece ter compreendido.
JORGE ALMEIDA FERNANDES, Portugal,
in "Público", 20.01.2009
JORGE ALMEIDA FERNANDES, Portugal,
in "Público", 20.01.2009
2009/01/20
I don't know whether I will be able to control myself [at the Inauguration]. I will be on the platform, and I'm going to try to keep my balance and not have what I call an out-of-body experience. I want to be able to see down the Mall and past the Washington Monument and get a glimpse of the Lincoln Memorial, where we stood 45 years ago.
JOHN LEWIS, Congressista da Georgia, EUA
Não sei se serei capaz de me controlar [na Tomada de Posse]. Vou estar na tribuna e vou tentar manter o equilíbrio e não ter aquilo a que chamo uma experiência extra-sensorial. Quero ser capaz de ver todo o Mall, passar pelo Monumento a Washington e vislumbrar o Memorial de Lincoln, onde estivemos de pé há 45 anos.
JOHN LEWIS, Congressista da Georgia, EUA
Não sei se serei capaz de me controlar [na Tomada de Posse]. Vou estar na tribuna e vou tentar manter o equilíbrio e não ter aquilo a que chamo uma experiência extra-sensorial. Quero ser capaz de ver todo o Mall, passar pelo Monumento a Washington e vislumbrar o Memorial de Lincoln, onde estivemos de pé há 45 anos.
2009/01/15
- I can understand, - he said, - Your Majesty's need to pass the time.
- Pass the time? - said the Queen. - Books are not about passing the time. They're about other lives. Other worlds. Far from wanting time to pass, Sir Kevin, one just wishes one had more of it. If one wanted to pass the time one could go to New Zealand.
ALAN BENNETT, U.K.,
in "The Uncommon Reader", 2006
― Consigo entender, ― disse ele, ― a necessidade que Vossa Majestade tem de passar o tempo.
― Passar o tempo? ― disse a Rainha. ― Os livros não são para passar o tempo. São sobre outras vidas. Outros mundos. Longe de querermos que o tempo passe, Sir Kevin, quem nos dera ter mais. Se quiséssemos passar o tempo, íamos à Nova Zelândia.
- Pass the time? - said the Queen. - Books are not about passing the time. They're about other lives. Other worlds. Far from wanting time to pass, Sir Kevin, one just wishes one had more of it. If one wanted to pass the time one could go to New Zealand.
ALAN BENNETT, U.K.,
in "The Uncommon Reader", 2006
― Consigo entender, ― disse ele, ― a necessidade que Vossa Majestade tem de passar o tempo.
― Passar o tempo? ― disse a Rainha. ― Os livros não são para passar o tempo. São sobre outras vidas. Outros mundos. Longe de querermos que o tempo passe, Sir Kevin, quem nos dera ter mais. Se quiséssemos passar o tempo, íamos à Nova Zelândia.
2009/01/09
Agora dirão porque me ocupo com estas coisas e ponho estrangeiros como heróis das minhas histórias. É um truque muito antigo, as pessoas ficam sempre impressionadas quando tudo se passa lá fora e aparece em cena gente doutros costumes e doutras terras. É assim, não há nada a fazer. Foi tempo em que o Samorim era visita da casa; agora até uma porteira de Passy nos deixa intimidados.
AGUSTINA BESSA-LUÍS, Portugal,
in "A Torre", 1989
AGUSTINA BESSA-LUÍS, Portugal,
in "A Torre", 1989
2009/01/01
To leap, to lengthen out, divide the air, to purloin, to pursue.
To tell the hen: fly over the fence, go in the wrong way
in your perturbation - this is life;
to do less would be nothing but dishonesty.
MARIANNE MOORE, U.S.A., 1935
Saltar, aumentar, dividir o ar, furtar, prosseguir.
Dizer à galinha: salta a vedação, na tua agitação
toma a direcção errada - a vida é isso;
fazer menos seria pura desonestidade.
To tell the hen: fly over the fence, go in the wrong way
in your perturbation - this is life;
to do less would be nothing but dishonesty.
MARIANNE MOORE, U.S.A., 1935
Saltar, aumentar, dividir o ar, furtar, prosseguir.
Dizer à galinha: salta a vedação, na tua agitação
toma a direcção errada - a vida é isso;
fazer menos seria pura desonestidade.
2008/12/31
Upon the moon I fixed my eye,
All over the wide lea;
With quickening pace my horse drew nigh
Those paths so dear to me.
WILLIAM WORDSWORTH, U.K.,
in "Strange fits of Passion Have I Known", 1830
Na lua fixei o olhar,
E em todo o vasto campo;
Com passo vivo o meu cavalo aproximou-se
Dos caminhos que me são tão queridos.
All over the wide lea;
With quickening pace my horse drew nigh
Those paths so dear to me.
WILLIAM WORDSWORTH, U.K.,
in "Strange fits of Passion Have I Known", 1830
Na lua fixei o olhar,
E em todo o vasto campo;
Com passo vivo o meu cavalo aproximou-se
Dos caminhos que me são tão queridos.
2008/12/25
2008/12/23
Manger, rire, chanter, - pourtant tout est mystère!
Dans quel but venons-nous sur ce vieux monde, et d'où?
Sommes-nous seuls? Pourquoi le Mal? Pourquoi la Terre?
Pourquoi l'éternité stupide? Pourquoi tout?
Mais non! Mais non, qu'importe à la mêlée humaine?
L'illusion nous tient! - et nous mène à son port.
Et Paris qui mourra faisant trêve à sa peine
Vers les cieux éternels braille un Noel encore.
JULES LAFORGUE, França,
in "Noel Résigné", 1880
Comer, rir, cantar, - porém tudo é mistério!
Com que fim vimos a este velho mundo, e de onde?
Estamos sós? Porquê o Mal? Porquê a Terra?
Porquê a eternidade estúpida? Porquê tudo?
Mas não! Mas não, que importa à turba humana?
A ilusão prende-nos! - conduz-nos ao seu porto.
E Paris que há-de morrer dá trégua às suas penas:
Aos céus eternos apregoa outro Natal.
Dans quel but venons-nous sur ce vieux monde, et d'où?
Sommes-nous seuls? Pourquoi le Mal? Pourquoi la Terre?
Pourquoi l'éternité stupide? Pourquoi tout?
Mais non! Mais non, qu'importe à la mêlée humaine?
L'illusion nous tient! - et nous mène à son port.
Et Paris qui mourra faisant trêve à sa peine
Vers les cieux éternels braille un Noel encore.
JULES LAFORGUE, França,
in "Noel Résigné", 1880
Comer, rir, cantar, - porém tudo é mistério!
Com que fim vimos a este velho mundo, e de onde?
Estamos sós? Porquê o Mal? Porquê a Terra?
Porquê a eternidade estúpida? Porquê tudo?
Mas não! Mas não, que importa à turba humana?
A ilusão prende-nos! - conduz-nos ao seu porto.
E Paris que há-de morrer dá trégua às suas penas:
Aos céus eternos apregoa outro Natal.
2008/12/15
We made a small society, at that odd hour; he and Jane hit it off, especially, vying in theories on the mechanical puzzle. She said, «I thought it might be like a subway turnstile - you needed a token.» It was a revelation to me, this wee-hour camaraderie of New Yorkers, and the city's genial way of folding my adultery into its round-the-clock hustle.
JOHN UPDIKE, E.U.A.,
in New York Girl, 2000
Fizemos um pequeno convívio, àquela hora excêntrica; ele e Jane criaram uma simpatia, rivalizando especialmente com teorias sobre o enigma mecânico. Ela disse: «Pensei que podia ser como um torniquete do metro - precisávamos de uma ficha.» Foi para mim uma revelação, esta camaradagem dos novaiorquinos às primeiras horas da manhã, e a maneira genial como a cidade envolveu o meu adultério na sua actividade imensa e permanente.
2008/12/05
2008/12/02
Where the printing-works buttress a church
And the northern river like moss
Robes herself slowly through
The cold township of York,
More slowly than usual
For a cold, northern river,
You see the citizens
Indulging stately pleasures,
Like swans. But they seem cold.
Why have they been so punished;
In what do their sins consist now?
JON SILKIN, U.K.,
in "Astringencies", The Coldness, 1961
Onde o trabalho de impressão reforça uma igreja
E a norte o rio como musgo
Se cobre e lento percorre
O frio condado de York,
Mais lento do que o costume
Para um rio do norte, frio,
Vemos os cidadãos
Entregarem-se a prazeres magníficos,
Como cisnes. Mas parecem frios.
Porque foram tão castigados;
Em que consistem agora os seus pecados?
And the northern river like moss
Robes herself slowly through
The cold township of York,
More slowly than usual
For a cold, northern river,
You see the citizens
Indulging stately pleasures,
Like swans. But they seem cold.
Why have they been so punished;
In what do their sins consist now?
JON SILKIN, U.K.,
in "Astringencies", The Coldness, 1961
Onde o trabalho de impressão reforça uma igreja
E a norte o rio como musgo
Se cobre e lento percorre
O frio condado de York,
Mais lento do que o costume
Para um rio do norte, frio,
Vemos os cidadãos
Entregarem-se a prazeres magníficos,
Como cisnes. Mas parecem frios.
Porque foram tão castigados;
Em que consistem agora os seus pecados?
2008/11/23
The stars were public flowers, leaning tall stalks, watch-
ing; public flowers were stars.
The flowers were secretaries civil servants clerks inspect-
ing me, their stalks like legs of secretary birds.
The bird-beaked people, come to see and ask, were glare-
accusing mass of stars.
JEFF NUTTALL, U.K., in "In The Park", 1965
As estrelas eram flores públicas, altos caules inclinados,
- a observar; as flores públicas eram estrelas.
As flores eram secretárias funcionários públicos escrivães
- a inspeccionar-me, caules como pernas de serpentários.
As pessoas bico de pássaro chegavam viam e perguntavam,
fulminantes - acusadora massa de estrelas.
ing; public flowers were stars.
The flowers were secretaries civil servants clerks inspect-
ing me, their stalks like legs of secretary birds.
The bird-beaked people, come to see and ask, were glare-
accusing mass of stars.
JEFF NUTTALL, U.K., in "In The Park", 1965
As estrelas eram flores públicas, altos caules inclinados,
- a observar; as flores públicas eram estrelas.
As flores eram secretárias funcionários públicos escrivães
- a inspeccionar-me, caules como pernas de serpentários.
As pessoas bico de pássaro chegavam viam e perguntavam,
fulminantes - acusadora massa de estrelas.
2008/11/09
O anúncio de Medvedev, na semana da eleição de Obama, de que a Rússia irá instalar os seus mísseis no enclave de Kalininegrado é um aviso, e um aviso sério. Ou Obama percebe os limites da tolerância da Rússia ao "cerco" do Ocidente e se coíbe de a provocar, ou recomeça uma hostilidade drástica não muito diferente da guerra fria. O auxílio técnico ao Irão e a próxima visita de Medvedev à Venezuela de Hugo Chávez são os primeiros sinais de que as coisas se deterioram. E se o Ocidente não inverter agora essa tendência, uma nova catástrofe se prepara para a América e a "Europa". Com a crise económica, a América "sobre-estendida" e a "Europa" desarmada, a Rússia do petróleo e do gás tem meios para criar o caos.
VASCO PULIDO VALENTE, Portugal,
in "Opinião", jornal Público, 9.11.2008
VASCO PULIDO VALENTE, Portugal,
in "Opinião", jornal Público, 9.11.2008
2008/11/08
No entanto, o que empresta à vitória de Barack Obama uma dimensão absolutamente inédita - e com um alcance tremendo para o futuro - é o facto de ele ter sido sufragado simbolicamente, de forma avassaladora, à escala universal. Se as eleições de 4 de Novembro tivessem sido não apenas americanas mas globais, Obama teria recebido porventura mais do que quatro quintos dos votos. Ele não é apenas um dos Presidentes mais votados na História recente americana, é também o Presidente do mundo - e, por isso, também, o nosso Presidente.
VICENTE JORGE SILVA, Portugal,
in jornal "SOL", 8.11.2008
VICENTE JORGE SILVA, Portugal,
in jornal "SOL", 8.11.2008
Se fosse viva, Rosa Parks teria agora 95 anos e teria certamente votado Obama. A lendária activista que no dia 1 de Dezembro de 1955 se recusou a levantar-se no autocarro para dar o seu lugar a um branco, e depois lutou arduamente contra a segregação racial durante toda a sua vida, teria ficado muito contente com esta vitória e sentiria que era finalmente esta a América dos seus sonhos.
LAURINDA ALVES, Portugal,
in Jornal PÚBLICO, 07.11.2008
LAURINDA ALVES, Portugal,
in Jornal PÚBLICO, 07.11.2008
2008/11/07
Frente ao Apollo Theatre, milhares de O-ba-ma-O-ba-ma-O-ba-ma, alguns com tambores. Uma velha passa com duas rosas altas, radiante. Um matulão abraça uma mulher que lhe dá pela cintura. "Yessssss. Yessssss!" O chão está cheio de papéis "Yes, we can." As pessoas riem-se para pessoas que não conhecem como se esta noite as pessoas se passassem a conhecer de outra forma. "O-ba-ma-Oba-ma, baby!", suspiram duas raparigas abraçadas, atravessando a multidão.
É 1h23 da manhã. Um rapaz sobe para o tecto de uma paragem de autocarro e começa a gingar a anca. A multidão desata a dançar, dentro da paragem de autocarro e por toda a rua, dezenas de milhares de pessoas nos quarteirões em volta. Não há música. Esta é a música.
ALEXANDRA LUCAS COELHO, Portugal,
in "Viagens com bolso", Ípsilon, jornal Público 07.11.08
É 1h23 da manhã. Um rapaz sobe para o tecto de uma paragem de autocarro e começa a gingar a anca. A multidão desata a dançar, dentro da paragem de autocarro e por toda a rua, dezenas de milhares de pessoas nos quarteirões em volta. Não há música. Esta é a música.
ALEXANDRA LUCAS COELHO, Portugal,
in "Viagens com bolso", Ípsilon, jornal Público 07.11.08
2008/11/05
2008/11/02
Sob a capa do "politicamente correcto", a América e a Europa não deixaram talvez nem o seu antigo racismo, nem a sua xenofobia; e continuam a execrar a homossexualidade e a lamentar a relativa "emancipação" das mulheres. Se Obama não ganhar (e espero fervorosamente que ganhe), a "tolerância" em que vivemos vai aparecer como a ilusão do século.
VASCO PULIDO VALENTE, Portugal,
in "Opinião", jornal Público, 2.11.2008
VASCO PULIDO VALENTE, Portugal,
in "Opinião", jornal Público, 2.11.2008
2008/10/23
One feeling at least grows stronger in me with each year that passes - a longing to see the cranes. At this time of the year I stand on the hill and watch the sky. Today they did not come. There were only wild geese. Geese would be beautiful if cranes did not exist.
JULIAN BARNES, U.K., in "The Silence"
The Lemon Table, 2004
Há pelo menos um sentimento que se torna mais forte em mim a cada ano que passa - o desejo de ver as garças. Nesta altura do ano subo à colina e observo o céu. Hoje elas não vieram. Só havia gansos selvagens. Os gansos seriam lindos se não existissem as garças.
JULIAN BARNES, U.K., in "The Silence"
The Lemon Table, 2004
Há pelo menos um sentimento que se torna mais forte em mim a cada ano que passa - o desejo de ver as garças. Nesta altura do ano subo à colina e observo o céu. Hoje elas não vieram. Só havia gansos selvagens. Os gansos seriam lindos se não existissem as garças.
2008/10/21
(o prazer de redescobrir J. M. G. le Clézio,
Prémio Nobel da Literatura, 2008)
Le rythme n’est pas forcément dans la civilisation; le retour vers le monde n’est pas un retour au primitivisme; le monde que s’est crée l’homme est aussi la «nature»: les réfrigérateurs, les automobiles, les avions, les ponts et les autoroutes, les immeubles de béton ne sont pas des décors; ne sont pas des miroirs. Ils sont vivants, ils ont leur existence propre, ils donnent autant qu’ils reçoivent. Les fleuves, les forêts, les chaînes de montagnes ne valent pas plus qu’eux. Sur la terre, qui existe, les inventions des hommes n’ont plus besoin d’être inventées. Elles appartiennent au dessin de l’univers.
J. M. G. le CLÉZIO, França,
in “L’infiniment moyen”, 1967
O ritmo não está forçosamente na civilização; o regresso ao mundo não é um regresso ao primitivismo; o mundo que o homem criou também é a «natureza»: os frigoríficos, os automóveis, os aviões, as pontes e as auto-estradas, os prédios de betão não são cenários; não são espelhos. Estão vivos, têm a sua existência própria, dão tanto quanto recebem. Os rios, as florestas, as cordilheiras de montanhas não valem mais do que eles. Sobre a terra, que existe, as invenções dos homens já não têm de ser inventadas. Pertencem ao desenho do universo.
Prémio Nobel da Literatura, 2008)
Le rythme n’est pas forcément dans la civilisation; le retour vers le monde n’est pas un retour au primitivisme; le monde que s’est crée l’homme est aussi la «nature»: les réfrigérateurs, les automobiles, les avions, les ponts et les autoroutes, les immeubles de béton ne sont pas des décors; ne sont pas des miroirs. Ils sont vivants, ils ont leur existence propre, ils donnent autant qu’ils reçoivent. Les fleuves, les forêts, les chaînes de montagnes ne valent pas plus qu’eux. Sur la terre, qui existe, les inventions des hommes n’ont plus besoin d’être inventées. Elles appartiennent au dessin de l’univers.
J. M. G. le CLÉZIO, França,
in “L’infiniment moyen”, 1967
O ritmo não está forçosamente na civilização; o regresso ao mundo não é um regresso ao primitivismo; o mundo que o homem criou também é a «natureza»: os frigoríficos, os automóveis, os aviões, as pontes e as auto-estradas, os prédios de betão não são cenários; não são espelhos. Estão vivos, têm a sua existência própria, dão tanto quanto recebem. Os rios, as florestas, as cordilheiras de montanhas não valem mais do que eles. Sobre a terra, que existe, as invenções dos homens já não têm de ser inventadas. Pertencem ao desenho do universo.
2008/10/19
Dizem de si que são jovens de elevado potencial e acreditam que, com dinheiro, a juventude lhes será eterna. Estes lobos ávidos confundem informação com sabedoria, interesse com desejo, imagem com visão, alucinação com imaginação. Sofrem de todas as ignorâncias que falseiam a vida. Não sabem que o fracasso é o outro rosto do triunfo, que a doença é a irmã mais próxima da saúde, que o futuro é tão antigo como o passado, que a morte é o segundo nome da vida. Ignoram que o homem não é mortal porque morre, mas morre porque é mortal. Querem-se elegantes, mas desconhecem que o mais elegante dos gestos humanos é aquele com que fazemos passar os outros à nossa frente. São de direita, porque acham que ser isso é ser mais do que os outros. Falam do Valor e do Lucro como os teólogos falam da Graça e da Salvação. Pensam que aquilo em que acreditam é o «horizonte incontornável do nosso tempo». Vorazes, violentos, vis, vaidosos e vazios, são prepotentes com o seu poder e subservientes ao poder dos outros: escravos hoje para poderem ser senhores amanhã.
Agora, andam muito assustados com a crise - e não apenas pelas razões que nos assustam a todos. Para eles, é como se a armada invencível a que pertencem começasse, derrotada, a afundar-se sob um céu vazio de um deus vencido pelo diabo. A hubris gerou a Némesis.
JOSÉ MANUEL DOS SANTOS, Portugal,
in impressão digital, "Expresso" 18.10.2008
Agora, andam muito assustados com a crise - e não apenas pelas razões que nos assustam a todos. Para eles, é como se a armada invencível a que pertencem começasse, derrotada, a afundar-se sob um céu vazio de um deus vencido pelo diabo. A hubris gerou a Némesis.
JOSÉ MANUEL DOS SANTOS, Portugal,
in impressão digital, "Expresso" 18.10.2008
2008/10/10
se me vendam os olhos, eu, o arqueiro! acerto
em cheio no alvo porque o não vejo:
por pensamento e paixão,
ou porque foi tão sentido o vento a luzir nos botões dos salgueiros,
como se atirasse do outro lado do vento,
ou na solidão de um sonho,
ou como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo ―
e
cego
acerto em cheio:
porque não quero
HERBERTO HELDER, Portugal,
in "A Faca Não Corta o Fogo", 2008
em cheio no alvo porque o não vejo:
por pensamento e paixão,
ou porque foi tão sentido o vento a luzir nos botões dos salgueiros,
como se atirasse do outro lado do vento,
ou na solidão de um sonho,
ou como se tudo fosse o mesmo: flecha e alvo ―
e
cego
acerto em cheio:
porque não quero
HERBERTO HELDER, Portugal,
in "A Faca Não Corta o Fogo", 2008
2008/10/06
Of all the Souls that stand create -
I have elected - One -
When Sense from Spirit - files away -
And Subterfuge - is done -
When that which is - and that which was -
Apart - intrinsic - stand -
And this brief Drama in the flesh -
Is shifted - like a Sand -
When Figures show their royal Front -
And Mists - are carved away,
Behold the Atom - I preferred -
To all the lists of Clay!
EMILY DICKINSON, E.U.A.,
in "Poems", 1862
De todas as Almas que foram criadas -
Eu escolhi - Uma -
Quando o Sentido foge ao Espírito; -
E o Subterfúgio - é feito -
Quando aquilo que é - e aquilo que foi -
Separados - intrínsecos - se erguem -
E este breve Drama da carne -
Se escoa - como Areia -
Quando as Figuras mostram a Fronte real -
E as Brumas - se desmancham,
Fixai o Átomo - que eu preferi -
Às listas todas do Barro!
2008/10/01
Se no princípio tiverem algumas dificuldades, se lhes acontecer algum pequeno desastre, não desistam nem desanimem. Depois do livro de cozinha o melhor mestre é a prática. Julgo ainda que o meu livro lhes proporcionará alguns momentos de alegria, pois a boa cozinha concorre para existir o bom humor na família. Os homens ficam pelo "beicinho" se, depois de um dia de intenso trabalho, as suas mulheres lhes fizerem servir um jantar apetitoso e bem apresentado. Não se esqueçam que a apresentação desempenha papel importantíssimo. Não basta saber grelhar uma boa carne, assar um bom peixe ou fazer um bolo muito fofo. É indispensável saber enfeitar um peixe, colocar uma carne na travessa e quais os acompanhamentos que lhes são dados. É imprescindível saber armar uma maionese e tornar os bolos apetecíveis. É preciso gostar antes de comer, para depois saborear com admiração...
BERTHA ROSA-LIMPO, Portugal,
in "O Livro de Pantagruel", 1947
BERTHA ROSA-LIMPO, Portugal,
in "O Livro de Pantagruel", 1947
2008/09/20
«Os nossos líderes nacionais estão a enviar os nossos filhos para o Iraque para uma tarefa que vem de Deus... é que há um plano e esse plano é um plano de Deus.» Esta frase não é de Bin Laden. Um amigo chamou-me a atenção: está no New York Times, e foi proferida por Sarah Palin, candidata conservadora à vice-presidência dos Estados Unidos.......................................... .................................................................................................................................................................Já não bastava saber-se que a candidata só tem passaporte desde há um ano, o que implica que não conhece o mundo. Mas travestir uma discussão da esfera política para a esfera do religioso é um precedente perigoso. Perigoso para o Ocidente e para a democracia, que não deve ser confundida com uma opção religiosa contra alguém. É que, numa discussão religiosa, há dificuldade em distinguir um fundamentalista islâmico de um fanático cristão, e nós, politicamente, nada temos a dizer sobre tais discussões.
LUÍS CAMPOS E CUNHA, Portugal,
in jornal “Público”, 19.09.2008
LUÍS CAMPOS E CUNHA, Portugal,
in jornal “Público”, 19.09.2008
2008/09/18
What's to be done in this world? Either face out the reality, fight with it, resignedly or heroically accept to suffer or struggle. Or else flee. In practice even the strongest heroes do a bit of fleeing ― away from responsibility into deliberate ignorance, away from uncomfortable fact into imagination. Even the strongest.
ALDOUS HUXLEY, U.K.,
in "After the Fireworks", 1930
O que se pode fazer neste mundo? Enfrentar corajosamente a realidade, lutar com ela, aceitar sofrer com resignação ou lutar heroicamente. Ou então fugir. Na prática até os heróis mais fortes praticam um pouco a fuga ― fogem da responsabilidade para a ignorância deliberada, do facto incómodo para a imaginação. Até os mais fortes.
ALDOUS HUXLEY, U.K.,
in "After the Fireworks", 1930
O que se pode fazer neste mundo? Enfrentar corajosamente a realidade, lutar com ela, aceitar sofrer com resignação ou lutar heroicamente. Ou então fugir. Na prática até os heróis mais fortes praticam um pouco a fuga ― fogem da responsabilidade para a ignorância deliberada, do facto incómodo para a imaginação. Até os mais fortes.
2008/09/03
― And what does she look like?
― She's an angel.
― That's Blanca, that's the one.
― Is she blond?
― No, she's dark-haired, like me.
― A brunette.
― Well, I don't know about that.
― You just said she was.
― Yeah, I just don't like to hear my sister talked about that way.
MIRANDA JULY, U.S.A,
in "No One Belongs Here More Than You", 2007
― E como é ela?
― É um anjo.
― É a Blanca, é essa.
― É loura?
― Não. Tem cabelo escuro, como eu.
― É morena.
― Bom, isso já não sei.
― Acabaste de o dizer.
― Pois, mas não gosto de ouvir falar assim da minha irmã.
― She's an angel.
― That's Blanca, that's the one.
― Is she blond?
― No, she's dark-haired, like me.
― A brunette.
― Well, I don't know about that.
― You just said she was.
― Yeah, I just don't like to hear my sister talked about that way.
MIRANDA JULY, U.S.A,
in "No One Belongs Here More Than You", 2007
― E como é ela?
― É um anjo.
― É a Blanca, é essa.
― É loura?
― Não. Tem cabelo escuro, como eu.
― É morena.
― Bom, isso já não sei.
― Acabaste de o dizer.
― Pois, mas não gosto de ouvir falar assim da minha irmã.
2008/08/26
It is noble to die of love, and honourable to remain un-
cuckolded for a season.
And she speaks ill of light women,
and will not praise Homer
Because Helen's conduct is "unsuitable".
EZRA POUND, U.S.A.,
in "Homage to Sextus Propertius", 1919
Nobre é morrer de amor, e honroso não ser en-
cornado por um tempo.
E das mulheres levianas ela fala mal,
e não exalta Homero
Porque é "imprópria" a conduta de Helena.
cuckolded for a season.
And she speaks ill of light women,
and will not praise Homer
Because Helen's conduct is "unsuitable".
EZRA POUND, U.S.A.,
in "Homage to Sextus Propertius", 1919
Nobre é morrer de amor, e honroso não ser en-
cornado por um tempo.
E das mulheres levianas ela fala mal,
e não exalta Homero
Porque é "imprópria" a conduta de Helena.
2008/08/15
A glória é como uma terrível catástrofe,
pior que a casa incendiada; enquanto
se abate a trave-mestra, o fragor
da destruição repercute-se cada vez mais depressa;
e tu contemplas tudo aquilo, inane
testemunha da danação.
Como uma bebedeira a glória devora
a casa da alma, revela que trabalhaste
para coisa pouca: para ela ―
ah, queria que esse beijo traiçoeiro nunca tivesse
molhado a minha face: queria
fundir-me, só, para sempre, na obscuridade, na noite.
HERBERTO HELDER, Portugal,
"Glória ― Malcolm Lowry", 1993
pior que a casa incendiada; enquanto
se abate a trave-mestra, o fragor
da destruição repercute-se cada vez mais depressa;
e tu contemplas tudo aquilo, inane
testemunha da danação.
Como uma bebedeira a glória devora
a casa da alma, revela que trabalhaste
para coisa pouca: para ela ―
ah, queria que esse beijo traiçoeiro nunca tivesse
molhado a minha face: queria
fundir-me, só, para sempre, na obscuridade, na noite.
HERBERTO HELDER, Portugal,
"Glória ― Malcolm Lowry", 1993
2008/07/26
São hoje seis dias corridos do mês de Julho de 1866.
E eu tenho frio.
Estou na aldeia. A chuva estaleja nas vidraças e o vento assobia nos vigamentos. Os cabeços dos montes escondem-se nas névoas que vêm descendo, como em Janeiro, e se desfazem em aguaceiros glaciais. Agora deponho a pena para espirrar. Anuncia-se-me a décima quarta bronquite desta quadra de zéfiros, rouxinóis e flores.
Aqui estou, pois, numa terra onde não há estradas, nem gente, nem Verão. Moscas há mais que as da praga. Eis-me constituído um faraó desta canalha.
CAMILO CASTELO BRANCO, Portugal,
"Cousas Leves e Pesadas", 1866
E eu tenho frio.
Estou na aldeia. A chuva estaleja nas vidraças e o vento assobia nos vigamentos. Os cabeços dos montes escondem-se nas névoas que vêm descendo, como em Janeiro, e se desfazem em aguaceiros glaciais. Agora deponho a pena para espirrar. Anuncia-se-me a décima quarta bronquite desta quadra de zéfiros, rouxinóis e flores.
Aqui estou, pois, numa terra onde não há estradas, nem gente, nem Verão. Moscas há mais que as da praga. Eis-me constituído um faraó desta canalha.
CAMILO CASTELO BRANCO, Portugal,
"Cousas Leves e Pesadas", 1866
2008/07/07
Pobres e minúsculas ilhas da solidão, coroadas de cagarros e de nuvens, onde a vida humana ainda tem, de quando em quando, o sabor dos primeiros dias da criação do mundo... Das espessuras oníricas da minha gaveta de bordo sonho-me corsário ou mercador. Abordamos a Porto Santo em pleno quarto de alva. Já se adivinha na escuridão do calado do paquete um vago livor de dia. O mar é tinta de escrever, mas já a ilha se adivinha abrupta, compacta, a uns quinhentos metros da escada do portaló.
VITORINO NEMÉSIO, Portugal,
in "Primeiro Corso", 1946
VITORINO NEMÉSIO, Portugal,
in "Primeiro Corso", 1946
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