2008/03/09


De onde eu concluo que Portugal, recusando-se ao menor passo nas letras e na ciência para merecer o respeito da Europa inteligente, mostra, à maneira do vadio de Caracas, o desprezo mais soberano pelas opiniões da civilização. Se o Brasil, pois, tem essa qualidade eminente de se interessar pelo que diz o mundo culto, deve-o às excelências da sua natureza, de modo nenhum ao seu sangue português: como português, o que era lógico que fizesse era voltar as costas à Europa, puxando mais para as orelhas o cabeção do capote...

EÇA DE QUEIROZ, Portugal, in "O Brasil e Portugal",
Cartas de Inglaterra, 1878

2008/03/07




He stood in her little garden; the long window of her parlour was open, and he could see the white curtains, with the lamplight shining through them, swaying softly to and fro in the warm night-wind. There was a sort of excitement in the idea of seeing Madame Münster again; he became aware that his heart was beating rather faster than usual. It was this that made him stop, with a half-amused surprise.

HENRY JAMES, E.U.A, in “The Europeans”, 1878



Estava de pé no jardinzinho dela; a grande janela da sala estava aberta e ele via o brilho do candeeiro através das cortinas brancas, que ondulavam brandas ao vento quente da noite. Havia uma espécie de excitação à ideia de voltar a ver Madame Münster; teve consciência de que o coração lhe batia bastante mais depressa do que o habitual. Foi isso que o fez parar, entre divertido e surpreso.

2008/03/03


And what of the half a million leftover embryos, which now nestle in nitrogen? «What you do with the frozen embryos you don’t use is your decision and yours alone», says the American Fertility Association. But it is not so simple. Are they people – or property? Stored embryos have been treated as part of an estate and the center of custody fights, like the Porsche or the puppy. Conservatives promote adoption as an answer, but some patients don’t want their genetic offspring being raised by other people.

in NANCY GIBBS’ Essay, TIME (Março 2008)



E o que fazer com meio milhão de restos de embriões, confortavelmente instalados em azoto? «O que você faz com os embriões congelados que não utiliza é uma decisão única e exclusivamente sua», diz a Associação Americana de Fertilidade. Mas não é tão simples. São pessoas... ou são propriedade? Os embriões armazenados têm sido tratados como bens e a sua guarda é disputada - como o Porsche ou o cachorro. Os conservadores defendem a solução da adopção, mas alguns pacientes não querem que a sua prole genética seja criada por outras pessoas.

2008/02/25


As I rose like a lover from the ravished sea
My cold mouth stuffed with jewels and with sand,
The fire falling at my hair and hand,
(Her mother the moon waiting for the fee)
I saw you lying by the listening tree.

The infant pain lay sleeping at your side
Rocked by the naked fingers of the tide,
But you saw not my shaking ship, nor me.

I spread my swearing sea-charts at your knee
My rooted tongue burgeoning apes and roses
As noon the sally-port of morning closes,
My crew hallooing at the drunken quay.

My bonny barque was sundered at your door!
You smiled, for you had seen it all before.


CHARLES CAUSLEY, U.K.,
“To a Poet Who Has Never Travelled”, 1961




Quando ressurgi qual amante do mar que seduzi
Minha boca fria entupida de jóias e de areia,
Cobertos de fogo meus cabelos e a mão,
(E a lua sua mãe esperando o soldo)
Vi-te deitado ao pé da árvore da atenção.

A dor infantil jazia a teu lado
Embalada pelos dedos despidos da maré,
Mas tu não viste meu navio sacudido, nem me viste.

Estendo-te as suadas cartas de marear à altura do joelho
Minha língua funda florida de arremedos e de rosas
Enquanto o meio-dia encerra a porta falsa da manhã,
E pelo cais ébrio clama a minha tripulação.

Minha barca galante quebrou-se à tua porta!
Sorriste, pois já antes viras tudo isto.

2008/02/23
















FRANK STELLA, E.U.A.,
Severambia, 1995, (pormenor)

2008/02/21

If only we’d been strangers
we’d be floating off to Timor,
we’d be shimmering on the Trades
in a blue jersey boat
with shandies, flying-fish,
a pace of dolphins
to the copra ports.
And it's no use crying
to me, What dolphins?
for I know where they are
and I’d have snapped you up
and carried you away
snapped you up
and carried you away
if we had been strangers.

EDWIN MORGAN, U.K.,
in “Floating off to Timor”, 1969




Se ao menos fôssemos estranhos
flutuaríamos até Timor,
reflectiríamos o nosso brilho nos Negócios
num barco de malha azul
com cerveja e lima, peixes voadores,
à velocidade dos golfinhos
até aos portos do óleo de coco.
E não vale a pena dizeres-me
em lágrimas: Quais golfinhos?
porque eu sei onde estão
e agarrava em ti
e levava-te
agarrava em ti
e levava-te
se fôssemos estranhos.

2008/02/20
















FRANK STELLA, E.U.A.,
Severambia, 1995, (pormenor)
And yet, as I write, I remember the desert wind whipping up the green waters; the thin hard blue of the sky; enormous women rolling round the town in pale indigo cotton boubous; the shutters on the houses the same hard blue against mud-grey walls; orange bowerbirds that weave their basket nests in feathery acacias; gleaming black gardeners sluicing waters from leather skins, lovingly, on rows of blue-green onions; lean aristocratic Touaregs, of supernatural appearance, with coloured leather shields and shining spears, their faces encased in indigo veils, which, like carbon paper, dye their skin a thunder-cloud blue; wild Moors with corkscrew curls; firm-breasted Bela girls of the old slave caste, stripped to the waist, pounding at their mortars and keeping time with monotonous tunes; and monumental Songhai ladies with great basketshaped earrings like those worn by the Queen of Ur over four thousand years ago.

BRUCE CHATWIN, U.K.,
in "Gone to Timbuctoo", 1996



E assim mesmo, ao escrever, lembro-me do vento do deserto que fustiga as águas verdes; do azul fino e duro do céu; de mulheres enormes que deslizam pela cidade com boubous de algodão lilás; de casas com estores do mesmo azul duro contra as paredes de cinzento lama; de pássaros laranja que fazem os ninhos nas acácias, em ramos que parecem penas fofas; de reluzentes jardineiros negros a fazer jorrar água de bolsas de couro, amorosamente, sobre filas de cebolas verde-azuladas; de esguios e aristocráticos tuaregues, de aparência sobrenatural, com escudos de couro pintado e lanças brilhantes, rostos encobertos por véus roxos que, como papel químico, lhes tingem a pele do azul das nuvens de tormenta; de sarracenos bárbaros, com o cabelo enrolado como saca-rolhas; de raparigas Bela, da antiga casta de escravos, com seios nus e firmes, a malhar o pilão e a enganar o tempo com monótonas melodias; e das monumentais senhoras Songhai, com brincos fantásticos em forma de cestos, iguais aos que usava a rainha de Ur há mais de quatro mil anos.

2008/02/19

Out
of this
bright
sun, this
white plaque
of heaven,
this leaven-
ing heat
of the seven
kingdoms:
Songhai, Mali,
Chad, Ghana,
Tim-
buctu, Volta,
and the bitter
waste
that was
Ben-
in, comes
this shout
comes
this song.


EDWARD BRATHWAITE, BARBADOS,
in "Libation", 1979




Deste
sol
brilhante, desta
placa branca
do firmamento,
deste calor
transforma-
dor
dos sete
reinos:
Songai, Mali,
Chade, Gana,
Tim-
buctu, Volta,
e a perda
amarga
que foi
Be-
nim, sai
este grito
sai
este
canto.

2008/02/15












SOFIA AREAL, Portugal,
Retrato, 1993 (pormenor)
He descubierto en la simetría
la raiz de mucha iniquidad.

Pêro están sordos los serenos
y a las dos de la noche es honda la grieta del mundo.

¿A quién acudir?
En este pueblo no hay murciélagos
ni bebedores de limonada.

Por eso los palacios siguen incólumes
y en lo alto de la columna
se abanica la desvergüenza.


JOSE MORENO VILLA, ESPANHA,
"Caramba 85", in Carambas, 1930




Descobri na simetria
a raiz de muita iniquidade.

Mas estão surdos os serenos
e às duas da manhã é funda a fissura do mundo.

A quem acudir?
Nesta aldeia não há morcegos
nem bebedores de limonada.

Por isso os palácios continuam incólumes
e no alto da coluna
abana-se a desfaçatez.

2008/02/09


Thou whom I, tentative and
Unsure that anyone at all
Listens, turn to but only
Send this one word, this single
Syllable ― for what more can
I say, what other name send,
But this naming without a
Real name, this which is a
Sound like any sound ― tell, is
Word sent in return?
I hear
A voice speak.
Whose voice?
It is
A voice without name, saying
Again saying, "Is it thee
There?"
Answer me, is it Thou?


EDWARD LUCIE-SMITH, Jamaica, Thou, 1968




Vós para quem, hesitante e
Sem saber se alguém
Estará a ouvir, me volto mas só
Envio esta única palavra, esta simples
Sílaba ― pois que mais posso
Dizer, que outro nome enviar,
Senão esta designação sem
Nome verdadeiro, este que é um
Som como qualquer som ― dizei, há
Uma palavra, uma resposta?
Ouço
Uma voz falar.
Voz de quem?
É
Uma voz sem nome, a dizer
Novamente a dizer, "Sois vós
Que estais aí?"
Respondei-me, sois Vós?

2008/02/05


Invejo quem tem fé, mas não posso deixar de pensar que a minha religião particular, uma espécie de panteísmo urbano (devoção por pastéis de carne e boas livrarias e a crença de que há um deus, sim: o deus do oboé, que além de ser um instrumento divino é o que afina todos os outros), é a única sensata, em meio ao que não deixa de ser - se bem examinada - uma crise mundial do monoteísmo.

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO, BRASIL,
in Actual, Expresso nº1840, 2-2-2008

2008/02/03


There were mosques everywhere, their domes vivid blue or green, with the symbol of the crescent etched against the darkening blue sky. Everyone was at prayer, it seemed to me, a whole people five times a day praying as naturally as breathing.
In this country faith is absolute and universal. The choice, if there is a choice, is made at birth. Everyone believes. For these people, God is a near neighbour.

PAUL TORDAY, U.K., in "Salmon Fishing in the Yemen", 2007




Havia mesquitas por toda a parte, com cúpulas de azul ou verde intenso, com o símbolo do crescente gravado contra o céu azul que escurecia. Parecia-me que estavam todos em oração, um povo inteiro a rezar cinco vezes por dia, tão naturalmente como quem respira.
Neste país a fé é absoluta e universal. A escolha, se existe escolha, é feita à nascença. Toda a gente acredita. Para estas pessoas, Deus é um vizinho próximo.

2008/01/31

2008/01/30

A big young bareheaded woman
in an apron

Her hair slicked back standing
on the street

One stockinged foot toeing
the sidewalk

Her shoe in her hand. Looking
intently into it

She pulls out the paper insole
to find the nail

That has been hurting her


WILLIAM CARLOS WILLIAMS, E.U.A.,
"Proletarian Portrait", 1947




Uma mulher grande jovem de cabeça descoberta
com um avental

Cabelo esticado para trás
parada na rua

Um pé com a meia apoiado
no passeio

Sapato na mão. Olha
lá para dentro com atenção

E puxa pela palmilha de papel
para encontrar o prego

Que tem estado a magoá-la

2008/01/23


Never ask leave to go abroad, for then it will be always known that you are absent, and you will be thought an idle rambling fellow, whereas, if you go out and nobody observes, you have a chance of coming home without being missed, and you need not tell your fellow-servants where you have gone, for they will be sure to say you were in the house but two minutes ago, which is the duty of all servants.

JONATHAN SWIFT, U.K., 1745, in "Directions to Servants"





Não tenteis nunca obter permissão para ir lá fora, porque desse modo sempre se saberá que vos ausentastes e sereis julgado vagabundo e preguiçoso, enquanto que, se sairdes sem ninguém vos ver, ser-vos-á possível regressar sem que dêem pela vossa falta e não precisais de contar aos outros criados onde fostes, pois decerto eles dirão que ainda há dois minutos estáveis em casa, como é dever de todos os criados.

2008/01/16


To say that Deronda was romantic would be to misrepresent him; but under his calm and somewhat self-repressed exterior there was a fervour which made him easily find poetry and romance among the events of everyday life. And perhaps poetry and romance are as plentiful as ever in the world except for those phlegmatic natures who I suspect would in any age have regarded them as a dull form of erroneous thinking. They exist very easily in the same room with the microscope and even in the railway carriages: what banishes them is the vacuum in gentlemen and lady passengers.

GEORGE ELIOT, U.K., in “Daniel Deronda”, 1876





Dizer que Deronda era romântico seria desvirtuá-lo; mas sob o seu exterior calmo e um pouco reprimido havia uma devoção que o fazia encontrar facilmente poesia e romantismo nos acontecimentos da vida quotidiana. E talvez poesia e romantismo abundem no mundo como sempre, excepto para as índoles impassíveis que, suspeito, em qualquer época os terão visto como uma forma de pensamento desacertado e sem interesse. Coexistem muito facilmente na mesma sala com o microscópio e até nas carruagens dos comboios: o que os afugenta é a vacuidade dos senhores e das senhoras passageiras.

2008/01/14





The twilight turns from amethyst
To deep and deeper blue,
The lamp fills with a pale green glow
The trees of the avenue.

The old piano plays in the air,
Sedate and slow and gay;
She bends upon the yellow keys,
Her head inclines this way.

Shy thoughts and grave wide eyes and hands
That wander as they list –
The twilight turns to darker blue
With lights of amethyst.


JAMES JOYCE, U.K., “Chamber music”, II, 1917




A luz do entardecer passa de ametista
A azul intenso e mais intenso,
O candeeiro enche de um clarão verde pálido
As árvores da avenida.

O velho piano toca uma ária
Tranquila e lenta e alegre;
Ela curva-se sobre as teclas amarelas,
A cabeça inclina-se para aqui.

Pensamentos tímidos, solenes mãos e olhos absortos
Que divagam enquanto escutam –
A luz do entardecer passa a azul mais escuro
Com brilhos de ametista.

2008/01/06


(em memória de Miguel v. G.)


Un jour, pourtant, un jour viendra
Couleur d’oranger
Un jour de palmes
Un jour de feuillages au front
Un jour d’épaules nues
Où les gens s’aimeront
Un jour comme un oiseau
Sur la plus haute branche.

LOUIS ARAGON, França, 1897-1972, in Un jour, un jour





Um dia, porém, um dia virá
Cor de laranjeira
Um dia de palmas,
Um dia de louros na fronte
Um dia de ombros nus
Em que as pessoas se amarão
Um dia como um pássaro
Sobre o ramo mais alto.

2008/01/03

2007/12/24

2007/12/23

NATAL CHIQUE

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.

Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.

Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado...
Só esse pobre me pareceu Cristo.

VITORINO NEMÉSIO, in "O Pão e a Culpa", 1955


2007/12/21


Je m'y suis vu moi-même; et sous une figure inconnue de moi, que mes écrits, peut-être, avaient formée. Vous n'ignorez pas, cher rêveur, que dans les songes, il se fait quelquefois un accord singulier entre ce que l'on voit et ce que l'on sait; mais ce n'est point un accord qui se suporterait dans la veille.

PAUL VALÉRY, França, in "Monsieur Teste", 1946



Vi-me a mim próprio nesse lugar; e com uma figura para mim desconhecida, que talvez os meus escritos tivessem formado. Você não ignora, caro sonhador, que nos sonhos se dá por vezes um acordo singular entre o que vemos e o que sabemos; mas é um acordo que não suportaríamos acordados.

2007/12/17












He continued to shoot ducks from the snowy sky, and felt pride in his marksmanship; yet beyond this lay a feeling he could grasp at but not contain. Every bird you downed bore pebbles in its gizzard from a land the maps ignored.

JULIAN BARNES, U.K., in "Arthur & George", 2005


Continuava a atirar aos patos no céu de neve e orgulhava-se da sua pontaria; mas por trás disso havia um sentimento que conseguia perceber mas não conter. Cada ave abatida trazia no papo pedrinhas de uma terra que os mapas ignoravam.

2007/12/16



NATAL

Nasce um Deus. Outros morrem. A verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo Deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.


FERNANDO PESSOA, Portugal, in "Cancioneiro", 1914



2007/12/11


The train rocks and knocks across the simplified landforms of the tundra: Russia's great white page, awaiting the characters and sentences of history. No hills and valleys, just bumps and dips. Here, topographical variation is the work of man: gigantic gougings and scourings, and pyramids of slag. If you saw a mountain, now, a plateau, a cliff, it would loom like a planet.

MARTIN AMIS, U.K., in "The House of Meetings", 2006


O comboio abana e faz barulho através da tundra e da sua terra de formas simples: a grandiosa página branca da Rússia, que espera as personagens e as frases da história. Não há colinas e vales, só montes e declives. Aqui, a variação topográfica é obra do homem: covas e erosões gigantescas e pirâmides de escória. Se víssemos agora uma montanha, um planalto, uma escarpa, ela agigantar-se-ia como um planeta.

2007/12/01


«What´s the point», Richard asked, «of a farm nobody farms?»

JOHN UPDIKE, E.U.A., in "Of the Farm", 1965



«Que sentido é que faz», perguntou Richard, «uma terra de cultivo que ninguém cultiva?»

2007/11/29



BAREFOOT FOR A SCORPION

The color of the sac and stinger of the scorpion
was red, and got its beauty from their poison. Bare
feet ache with the threat, the eyes with praise,
the serum for revulsion. Praise be, then, that
the armored teardrop searching on the tail
could miss feet, sting sight, and reconcile
death’s stamping panic with a vision of form,
red at the point where chance and law join.

ALAN DUGAN, E.U.A., 1967




PÉS NUS PARA UM ESCORPIÃO

A cor da bolsa e do ferrão do escorpião
era vermelha e a sua beleza provinha do veneno deles.
Descalços os pés sofrem com a ameaça, com os olhos
exaltados, com a repugnância do soro. Exaltemos, então,
a lágrima blindada a remexer na cauda por ela
ter conseguido falhar os pés, estimular a visão e reconciliar
o pânico estampado da morte com uma visão da forma,
vermelha no ponto onde risco e lei se unem.

2007/11/16


The sensation was part of the general strangeness that made him feel like a man waking from a long sleep to find himself in an unknown country among people of alien tongue. We live in our own souls as in an unmapped region, a few acres of which we have cleared for our habitation; while of the nature of those nearest us we know but the boundaries that march with ours.

EDITH WHARTON, U.K., “The Touchstone”, 1900



A sensação incluía-se na estranheza geral que o fazia sentir-se como um homem que acorda de um longo sono e se vê num país desconhecido, entre pessoas de língua estranha. Vivemos nas nossas almas como numa região sem mapa, da qual libertámos alguns hectares para nós próprios habitarmos; enquanto que da natureza dos que nos são mais próximos só conhecemos as fronteiras que confinam com as nossas.

2007/11/05



Glennard dropped the Spectator and sat looking into the fire. The club was filling up, but he still had to himself the small inner room with its darkening outlook down the rain-streaked prospect of Fifth Avenue. It was all dull and dismal enough, yet a moment earlier his boredom had been perversely tinged by a sense of resentment at the thought that, as things were going, he might in time have to surrender even the despised privilege of boring himself within those particular four walls.

EDITH WHARTON, U.S.A., in The Touchstone, 1900


Glennard pôs de lado o Spectator e sentou-se a olhar o lume. O clube começava a encher, mas continuava a ter só para ele a salinha interior com a visão lá de baixo, cada vez mais escura, do cenário da Quinta Avenida varrida pela chuva. Era tudo bastante monótono e sombrio, mas ainda há instantes o seu enfado se eivara perversamente de uma sensação de revolta, à ideia de poder vir a ter, dado o actual estado de coisas, de renunciar ao privilégio menor de se aborrecer entre aquelas mesmas quatro paredes.









BRUCE DAVIDSON, E.U.A., 1961

2007/11/02


A VASE OF FLOWERS

The vase is white and would be a cylinder
If a cylinder were wider at the top than at the bottom.
The flowers are red, white and blue.

All contact with the flowers is forbidden.

The white flowers strain upward
Into a pallid air of their references,
Pushed slightly by the red and blue flowers.

If you were going to be jealous of the flowers,
Please forget it.
They mean absolutely nothing to me.

JOHN ASHBERY, U.S.A., “Some Trees”, 1956




UMA JARRA DE FLORES

A jarra é branca e seria um cilindro
Se um cilindro fosse mais largo em cima do que em baixo.
As flores são encarnadas, brancas e azuis.

É proibido todo o contacto com as flores.

As flores brancas esforçam-se por ascender
A uma aragem pálida dos seus atributos,
Ligeiramente impelidas pelas flores encarnadas e azuis.

Se ias ter ciúmes das flores,
Por favor esquece.
Para mim não significam absolutamente nada.

2007/11/01

2007/10/31

LE VIN PERDU

J'ai quelque jour, dans l'Océan,
(Mais je ne sais plus sous quels cieux)
Jeté, comme offrande au néant,
Tout un peu de vin précieux...

Qui voulut ta perte, ô liqueur?
J'obéis peut-être au devin?
Peut-être au souci de mon coeur,
Songeant au sang, versant le vin?

Sa transparence accoutumée
Après une rose fumée
Reprit aussi pure la mer...

Perdu ce vin, ivres les ondes!...
J'ai vu bondir dans l'air amer
Les figures les plus profondes...

PAUL VALÉRY, França, "Charmes" (1922)

O VINHO PERDIDO

Lancei um dia, ao Oceano,
(Mas já não sei sob que céus)
Como oferenda feita ao nada
Um pouco de precioso vinho...

Quem quis perder-te, ó licor?
Obedecerei talvez ao adivinho?
Talvez aos cuidados do meu coração,
Pensando no sangue, deitando o vinho?

A transparência do costume
Após um rosado fumo
Recuperou-a pura, o mar...

Perdido o vinho, ondas embriagadas!...
Vi irromper no ar salgado
As figuras mais profundas...

2007/10/25



I was a traveller then upon the moor;
I saw the hare that raced about with joy;
I heard the woods and distant waters roar;
Or heard them not, as happy as a boy:
The pleasant season did my heart employ:
My old remembrances went from me wholly;
And all the ways of men, so vain and melancholy.

“Resolution and Independence” (III)

WILLIAM WORDSWORTH, 1770-1850, U.K.



Viajava nesse tempo pelo matagal;
Via a lebre que corria veloz, com alegria;
Ouvia bramir florestas e distantes águas;
Ou nem as ouvia, feliz como um rapazinho:
A amena estação meu coração enchia:
Inteiras, as velhas lembranças me fugiam;
E todas as acções dos homens, sua vaidade e melancolia.

2007/10/14

2007/10/10


THE PARTY
They served tea in the sandpile, together with
Mudpies baked on the sidewalk.
After tea
The youngest said that he had had a good dinner,
The oldest dressed for a dance,
And they sallied forth together with watering pots
To moisten a rusted fire truck on account of it
Might rain.

I watched from my study,
Thought of my part in these contributions to world
Gaiety, and resolved
That the very least acknowledgement I could make
Would be to join them;
so we
All took our watering pots (filled with pies)
And poured tea on our dog. Then I kissed the children
And told them that when they grew up we would have
Real tea parties.
«That did be fun!» the youngest shouted, and ate pies
With wild surmise.


REED WHITTEMORE, E.U.A, n. 1919





A FESTA

Serviram o chá sobre o monte de areia, juntamente com
Bolos cozidos em cima do passeio.
Depois do chá
O mais novo disse que tinha jantado bem,
O mais velho vestiu-se para um baile,
E avançaram triunfantes, com regadores,
Para molharem um carro de bombeiros enferrujado, não fosse
A chuva cair.

Eu observava-os do escritório,
Pensava no meu papel e nestes contributos à animação
Do mundo, e resolvi
Que a mínima manifestação de apreço que podia dar
Era juntar-me a eles;
então todos
Pegámos nos nossos regadores (cheios de bolos)
E regámos o cão com chá. Depois beijei as crianças
E disse-lhes que quando crescessem daríamos
Chás a sério.
«Isso era engraçado!» gritou o mais novo; e comeu os bolos
Com natural desconfiança.

2007/10/04

2007/10/02

2007/10/01


JEWELS OF INDOOR GLASS

The broken glass on the stairs
shines in the electric light.
Whoever dropped the beer
was anti-social or too drunk
to sweep it up himself.
So the beauty goes, ground
under heel but shining, it
and the deposit lost. But
by the janitor’s broom
it is still sharp enough
for dog’s feet, babies’ hands,
and eyes pierced by its lights,
that he should curse the fool
and I should try to praise
the pieces of harmony.

ALAN DUGAN, USA, in “Poems”, 1967






JÓIAS DE VIDRO NO INTERIOR

Os vidros partidos nas escadas
brilham à luz eléctrica.
O que deixou cair a cerveja
era anti-social ou bêbado demais
para ser ele a limpá-la.
Assim a beleza vai, chão
sob o tacão mas a brilhar, ela
e o depósito perdido. Mas
junto à vassoura do porteiro
ainda é cortante
para patas de cães, mãos de bebés
e olhos trespassados pelas suas luzes,
o bastante para que ele maldiga o louco
e eu tente exaltar
os pedaços da harmonia.

2007/09/08











MICHAELANGELO PISTOLETTO,
Due Ragazzi alla Fonte (pormenor),
1962-75